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| Boletim
informativo do deputado Flavio Koutzii (28), em 08 de Dezembro de 2003 |
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| Reproduzimos abaixo, com autorização
do autor, o
TAU
GOLIN* Elisabeth é uma mulher bonita, emancipada, advogada e ruralista. Entretanto, seus olhos não possuem mais aquele bucolismo que acreditava refletir a campanha. A realidade por fim aflorou depois de maneada durante dois séculos e sugou a bela Elisabeth para um rincão gabrielense e a jogou para dentro da história. E, então, sua sensibilidade alimentada em uma visão de mundo exclusivista, submetida à vontade simbólica e política de uma hereditariedade pretensamente emblemática da oligarquia, cujo espaço sacralizado por seus proprietários expurga política e culturalmente a jurisdição do estado-nação. Por isso, Elisabeth, quando o efetivo da Brigada Militar ingressou no seu mundo representando o Estado de Direito, você sentiu-se violada. Entendo seu rosto congelado na lente da máquina fotográfica. Mas, na verdade, aquele não é o seu rosto. Olhando a fotografia, certamente, você não irá mais reconhecer aquela mulher jovial e que se considerava moderna. Agora, o seu rosto é a fisionomia da sua classe social. A radicalidade da vida concreta, Elisabeth, operou essa transformação. Quando a mão cirúrgica do real retirou todas as bandagens daquela representação social a que estava acostumada, você deve ter ficado assustada diante do espelho. Mas, entenda, o rosto "celerado" refletido não é somente seu. O ódio ali contido e que impregnou a fotografia expressa uma imagem forjada secularmente. É a reação de quem vê o seu mundo repensado e a possibilidade de modificá-lo. Nesse momento, Elisabeth, com seu rosto de classe, você sabe o que é um Estado de Direito. Seus olhos vidrados são a expressão desesperada de uma categoria que não pode mais tão facilmente instrumentalizar os aparelhos de governo. No entanto, apesar de tudo, de seus minutos de pânico durante sua militância ruralista, você não corre nenhum risco, exceto desses pequenos dissabores. Ao contrário daqueles que seu piquete gostaria de interromper o caminho (e o encontro com a dignidade no futuro), você, certamente, jamais passará pela mesma experiência deles, de seus antepassados e, mesmo, dos movimentos que historicamente reivindicam direito a terra. Você não terá sua privacidade invadida, não sofrerá constrangimentos, não será estuprada pela jagunçada e agregados. Não será espancada por uma polícia servil transformada em posteiros do latifúndio. A guilhotina e o paredão são imagens que apenas povoam o seu cérebro. Você não corre mais nenhum perigo, Elisabeth. Seu rosto celerado deixou de ser seu e, como fisionomia desesperada de classe, não pode mais viver o encantamento bucólico de um mundo exclusivista. Convenhamos, isso é muito pouco para um pesadelo, Elisabeth. * Jornalista e historiador. |
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