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Zuzu
incomoda
Reproduzimos
o texto de Emir Sader,
publicado
em seu blog no site www.agenciacartamaior.com.br,
em 13/08/2006.
Quando o mundo volta a ter um importante cinema político, a crítica
brasileira se mostra ainda insensível e incapaz de assimilar essas
temáticas. Veja-se o caderno especial do Le Monde Diplomatique
– "Maniére de voir" – onde se dá conta
que, com o surgimento do movimento de luta por "um outro mundo possível"
e com os atentados de 2001 nos EUA, surgiu uma nova onda de politização
do cinema no mundo, com reconhecimento dos grandes festivais de cinema
que, pela primeira vez, deram um prêmio a um filme como o de Michael
Moore, além de prestigiar a vários outros.
Por aqui, Olga foi abominado pela crítica, embora consagrado pelo
público. Agora, Zuzu não encontrou palavras de alento da
crítica, embora uma ou outra voz isolada incentive a que o filme
seja visto pelo grande público.
Zuzu incomoda, como a personagem real incomodou no seu tempo. Hoje, quando
recorda as atrocidades da ditadura militar – seqüestros, torturas,
execuções, desaparições. Quando vários
personagens e órgãos da imprensa que participaram do regime
ou compactuaram com ele, andam por ai, Zuzu incomoda.
Vem sempre a perguntinha que os jovens alemães, quando tomaram
consciência do nazismo, passaram a perguntar para seus pais: Onde
estava você? Não sabia daquilo tudo? O que fez contra? Com
um imenso medo e desconfiança da cumplicidade dos pais com o nazismo.
Hoje nenhum órgão da imprensa fez a perguntinha a políticos,
a empresários e aos próprios grandes órgãos
da mídia: Onde estavam vocês? Não sabiam daquilo tudo?
O que fizeram contra? Com uma desconfiança fundada da cumplicidade
de todos eles.
Zuzu incomoda, porque toca numa ferida que nunca cicatrizou, porque nunca
foi tocada: empresas e empresários financiavam a tortura, a repressão
desatada pela ditadura militar e enriqueceram durante todo esse período.
Quem são? O que fizeram? Quanto ganharam? Foram anistiados também
pelo decreto da ditadura militar?
O papel da grande mídia também fica exposto: quando Zuzu
diz que vai escrever cartas para as pessoas mais importantes do país,
a caixa de envelopes deixa ver claramente quem é o primeiro da
lista: Roberto Marinho. Ela vai à redação de um jornal
para tentar publicar o anúncio fúnebre da morte de Stuart,
recebe um rotundo não do editor que a atende. E, no final do filme,
se diz que a carta que Zuzu deixou na casa de Chico Buarque, teve 22 cópias
feitas por este e enviadas para os principais órgãos de
imprensa da época, mas nenhum o publicou.
Mas vale muito a pena ver Zuzu não apenas por razões políticas.
O filme – assim como Olga – é muito bem feito, sensível,
tocante, agudo. Uma crítica estetizante, aberta para qualquer bagulho
de Hollywood, demonstra uma impressionante falta de sensibilidade estética,
mas também de sensibilidade política e humana. Será
esta a insensibilidade da crítica pos-moderna, vazia de conteúdo,
cortada do passado e do próprio presente?
Recomendo: vejam Zuzu, que incomoda, por ótimas razões,
a quem tem que ser incomodado e que nunca foi incomodado – pelas
torturas, que geraram polpudos lucros e fortaleceram monopólios
privados. A violência, o terror, a ditadura, que estiveram a serviço
das grandes fortunas. Para que este passado passe, vejamos todos Zuzu,
apuremos quem produziu o terror, quem ganhou com ele, quem ainda anda
por aí, impunemente, às custas da dor de Stuart, de Zuzu
e de todas as vítimas – a quem a democracia não fez
justiça até hoje.
Postado por Emir Sader às 10:02
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