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| Boletim informativo do deputado Flavio Koutzii/PT (44), 18 de outubro de 2006. | ||
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Flavio Koutzii OS FATOS OCULTOS ELEIÇÕES – A mídia, em especial a Globo, omitiu informações cruciais na divulgação do dossiê e contribuiu para levar a disputa ao 2º turno. Por Raimundo Rodrigues Pereira 1. Pode-se começar a contar a história do famoso dossiê que os petistas teriam tentado comprar para incriminar os candidatos do PSDB pela sexta-feira 15 de setembro, diante do prédio da Polícia Federal em São Paulo. Dentro estão presos Valdebran Padilha e Gedimar Passos, ligados ao PT e com quem foram encontrados 1,7 milhão de reais. É por volta de 5 da tarde. A essa altura, estaciona uma perua da Rede Globo. Ela pára entre duas outras equipes de tevê: uma da propaganda eleitoral de Geraldo Alckmin e outra da de José Serra. Aos poucos vão chegando outras emissoras Que a Rede Glovo fosse a primeira a chegar, tudo bem: ela tem uma enorme estrutura e com esse objetivo. Mas como o pessoal do marketing político chegou antes? As duas equipes pertencem à GW, cujos donos foram jornalistas: o G é de Luiz Gonzales, ex-TV Globo, e o W vem de Woile Guimarães, secretário de redação da famosa revista Realidade, do fim dos anos 1960. Entre os jornalistas logo se sabe quje foi Gonzales quem ligou para a Globo, avisando do que se passava da PF. E quem avisou Gonzales? Foi alguém da Polícia Federal? Foi alguém do Ministério Público de Cuiabá, de onde veio o pedido para atuação da PF? Fonte do Ministério da Justiça disse a Carta Capital que as equipes da GW chegaram à PF antes dos presos. Gente da GW diz que a empresa soube da história através de Cláudio Humberto, o ex-secretário de imprensa do ex-presidente Collor, que tem uma coluna de fofocas e escândalos na internet e que teria sido o primeiro a anunciar a prisão dos petistas. Pode ser que sim, o que apenas leva a pergunta mais para a frente: quem avisou Cláudio Humberto? Procurando saber a quem interessava a divulgação da história do dossiê e como essa divulgação foi feita, voltemos ao prédio da PF duas semanas depois. 2. É 29 de setembro, vésperas da eleição presidencial, por volta de 10h30m da manhã. Sai do prédio o delegado Edmilson Pereira Bruno, 43 anos, que estava de plantão no dia 15 e foi o autor da prisão de Valdebran e Gedimar. Ele convida alguns jornalistas para uma conversa reservada, longe dali. O delegado não sabe mas sua conversa está sendo gravada. Bruno diz que passar cópias das fotos do dinheiro apreendido com os petistas, levando um CD com 23 fotos e três CDs Em branco para copiarem as imagens. Fala que eles devem dizer: "alguém roubou e deu para vocês", para explicar o aparecimento das fotos. Diz que vai contar a mesma história a seus superiores. Algumas pessoas têm a fita de áudio com a conversa do delegado Bruno com os quatro repórteres. Mais pessoas ainda a ouviram. Uma delas é o jornalista Luiz Carlos Azenha, que tornou público vários de seus trechos no seu site pessoal na internet www.viomundo.globo.com. Azenha, que é repórter da TV Globo, não quis dar entrevista a Carta Capital. Para o que mais interessa ao desenrolar da história, dos trechos da fita, deve-se destacar a preocupação de Bruno em faz\er com que as fotos chegassem no dia ao Jornal Nacional. "Tem alguém da Globo aí?", pergunta ele. Um dos quatro responde: "Tem o Bocardi". "Não é o Tralli? O Tralli está muito visado", Bruno diz, referindo-se a Cesar Tralli e ao incidente, conhecido de muitos, de que esse repórter da TV Globo ter podido acompanhar, praticamente disfarçado de Polícia Federal, a prisão de Flavio Maluf, filho de Paulo Maluf. Mas a preocupação principal de Bruno é a que ele reitera nesse trecho: "Tem de sair hoje à noite na tevê. Tem de sair no Jornal Nacional". 3. As fotos serão divulgadas, com imenso destaque, no dia 29, véspera das eleições, repita-se, no Jornal Nacional. Mas não apenas no JN. A Folha de São Paulo publicou, com grande destaque na primeira página, a foto na qual o dinheiro está empilhado de forma que as notas apareçam com a frente voltada para o leitor e que foi feita de baixo para cima, que pé a que mais dá a impressão de "montanha de dinheiro". E não divulgou que as fotos lhe tinham sido passadas por um policial visivelmente empenhado em fazer com que elas tivessem um uso político claro, de interferir no pleito de 1º de outubro. A Folha também tinha a fita de áudio, que foi levada por sua repórter. A editora-executiva do jornal, Eleonora de Lucena, não quis responder por que omitiu as informações dessa fita. Alguns dos repórteres disseram que não deviam preservar o sigilo da fonte . Mas porque ela não deu a informação de que se tratava de uma intervenção política no processo eleitoral, publicanedo os trechios da fita de áudio, que tornam isso explícito, sem citar o nome da fonte? O mais curioso, para dizer o mínimo, é que a Folha publica, junto com as fotos do dinheiro uma matéria na qual conta o que o delegado Bruno disse depois, na tarde do mesmo dia 29, ao conjunto de jornalistas na frente da PF. No texto, assinado pela repórter do jornal que recebeu as fotos de Bruno pela manhã, se diz: "O delegado Bruno disse, ontem, em coletiva à imprensa, que o CD com as fotos havia sido furtado de sua sala na PF – e que ele estava sendo injustamente acusado de ter repassado o material aos jornalistas". Pergunta-se: qual é o sentido de publicar uma informação que a jornalista sabia que é evidentemente mentirosa e, no caso, ainda ajudava o policial a tentar enganar a própria imprensa? O Estado de São Paulo do dia 30 publica a mesma foto, com texto onde diz que a publicação das fotos é a abertura "de um segredo que o governo Lula mantinha a sete chaves". E também uma espécie de defesa do delegado Bruno. 4. No dia 29, no Jornal Nacional, da Globo, não há espaço para mais nada: a tragédia do avião da Gol não entra; o noticiário eleitoral, com destaque para as fotos do dinheiro dos petistas, é praticamente o único assunto. Qual a razão da omissão do JN? A emissora levou um furo, como se diz no jargão jornalístico, ou decidiu concentrar ses esforços no que lhe pareceu mais importante? Qualquer que seja o motivo, o certo é que a questão da divulgação das fotos mobilizou a cúpula do jornalismo da tevê dos Marinho. A fita de áudio com a conversa de Bruno com os jornalistas e o CD com as imagens do dinheiro foram passados à chefia de jornalismo do JN em, São Paulo e de lá foram levadas a Ali Kamel, no Rio, editor em última instância de todo o noticiário político da emissora carioca. Compreende-se porque a decisão sobre o que fazer com o áudio e com as fotos tivesse de ser tomada pelas mais altas autoridades da emissora. Se divulgasse o conteúdo exato das duas informações, a Globo estaria mostrando que o delegado queria usar a emissora para os claros fins políticos que manifestava e que a emissora tinha feito a sua parte neste projeto. "Não nos interessa ter essa fita. Para todos os efeitos, não a temos", teria dito Kamel. A informação complicava a Globo, a informação sumiu. 5. Este comportamento provocou reclamações de vários funcionários da emissora, pois não havia tratamento igual para as duas pontas da história. A ponta que envolvia " a podridão dessa banda sindical petista", como dizia um desses funcionários revoltados, era amplamente divulgada. Já a outra, que envolvia articulações de Abel Pereira, empresário de Piracicaba, com interesses no Ministério da Saúde na época dos governos tucanos, era praticamente omitida. Este viés anti-PT e pró-tucano, que não foi apenas da Globo, mas dos principais jornais e revistas da imprensa, fez com que não saísse a informação de que a história do dossiê começa com a investigação, pelo grupo de inteligência comandado por Jorge Lorenzetti, da ida de Abel Pereira a Cuiabá, supostamente para tentar comprar dos Vedoin um outro dossiê, de informações que poderiam incriminar os tucanos José Serra e Barjas Negri, ministros da Saúde no governo FHC. Outros petistas, acusados de envolvimento no caso, foram enviados a Cuiabá numa operação de contra-espionagem. Há provas deste trabalho. Nos dias 23 e 24, Abel Pereira esteve em Cuiabá e foi espionado por um fotógrafo, contratado por Gedimar e Veloso. Abel tentaria comprar por 10 milhões de reais, as informações de que os Vedoin tinham contra os tucanos. O dia 14 de setembro é a data em que Bargas e Veloso acompanharam a entrevista da Isto É com os Vedoin, reportagem de capa da revista naquela semana. A matéira mostrava o que e do conhecimento de todos os jornalistas que pesquisaram minimamente o assunto: que 70% das ambulâncias comercializadas pela Planam, a empresa dos Vedoin, entre 2000 e 2004, tiveram suas verbas liberadas nas gestões de Serra e Negri. É absolutamente razoável supor que Serra e Negri sejam pessoas acima de qualquer suspeita. E também razoável supor que as negociações de Abel com os Vedoin sejam lícitas, mesmo porque não é crime comprar informações. É também justo ficar indignado com o baixo nível da política que se fundamenta no esforço de provar que o candidato adversário ou é ladrão ou está ligado a ladrões. Mas pergunta-se: por que achar que os petistas são os piores de todos os políticos, sem investigar o outro lado? Essa era a pergunta que faziam à direção da Globo alguns de seus funcionários de São Paulo. 6. Outra omissão é o pouco destaque dado ao comportamento do procurador Mário Lúcio Avelar. Avelar é o mesmo procurador cujo trabalho resultou na divulgação, no começo de 2002, das fotos de dinheiro apreendido na empresa Lunus, do marido de Roseana Sarney, à época pretendente ao cargo de presidente pela coligação PSDB/PFL, com pesquisas de opinião que mostravam uma ascenção espetacular de seu nome, com índices próximos aos de Lula e superiores ao de José Serra, que acabou sendo o candidato da coligação conservadora. Com a divulgação das imagens do dinheiro apreendido, também numa operação da Polícia Federal, como agora, também com o vazamento das fotos para a imprensa e, especialmente, para o Jornal Nacional, Roseana despencou nas pesquisas e acabou ficando de fora do pleito. Mais tarde o dinheiro foi devolvido a Lunus e se concluiu que não havia nada de ilegal. Avelar era, na época, procurador da República em Tocantins, de onde foi afastado no fim de 2002, por Geraldo Brindeiro, por ter indiciado políticos com mandato, sem ter competência legal para fazê-lo. Em Mato Grosso, para onde seguiu depois, foi o comandante jurídico da operação que resultou na prisão de 93 pessoas, entre elas o diretor de florestas do Ibama, que pegou quatro noites de prisãio, foi liberado e completamente inocentado. Avelar acabou confessando ao delegado que chefiou a investigação que nem sequer devia tê-lo ndiciado. No caso do atual dossiê, Avelar insinuou que o dinheiro era público. Disse, em tom de ironia: "Veja bem, estamos falando de um partido político que tem o comando do País. Não tem mais nada... só o País. Pode sair de onde o dinheiro? No dia 19 de setembro Avelar pediu a prisão preventiva de Freu Godoy, uma espécie de segurança pessoal do presidente Lula. O juiz Marcos Alves Tavares, da Segunda Vara Federal, rejeitou o pedido feito por Avelar e, além da argumentação contra o pedido, escreveu: é, "no mínimo, contraproducente que um pedido de prisão temporária seja divulgado na imprensa antes de sua análise pelo juízo." Desde a manhã circulava a informação da prisão de Freud pela internet. Avelar voltou à carga e pediu a prisão preventiva de Bargas, Lorenzetti, Freud, Velçoso, gedimar e Valdebra, no dia 25 de setembro, às 21 horas, três horas antes do horário a partir do qual não são mais permitidas as prisões de qualquer cidadão, a não ser em flagrante delito, 7. A investigação do procedimento de Avelar é importante por um motivo que o jornalista maranhense Walter Rodrigues, que ajudou Carta Capital na preparação desta matéria, chama o "modus operandi" do tipo de infração no qual o promotor pode estar se especializando. Ela pode ser definida assim: Vive-se um período eleitoral. Procuradores e policiais civis estão ativos, investigando diversos tipos de delito. E começam a misturar os trabalhos que estão fazendo com suas preocupações partidárias. E aí e desviam do mandado que receberam, passando a investigar pessoas e entidades adversárias. Isto é uma grave violação do princípios da Justiça. O mandado para a investigação de Cuiabá não era contra os Vedoin, pessoalmente. Era uma investigação de superfaturamento de ambulâncias e de suborno de parlamentares. No meio da investigação surgem os telefonemas dos arapongas do PT. Mas do que os petistas do casso do dossiê são acusados? De comprar informações? Não, porque este não é um crime tipificado em lei. A Globo encontrou advogados que lhe permitiram dizer: "Há duas hipóteses de o episódio vir a configurar crime. A primeira, se for comprovada a origem ilícita do dinheiro apreendido. Neste caso, os envolvidos poderiam ser processados por crime de ocultação de valor proveniente de ilícito.(...) A segunda possibilidade é a de o dossiê conter falsas provas, configurando crime eleitoral de obtenção de documento material ou ideologicamente falso, para fins eleitorais". Os
petistas já foram presos, agora trata-se de achar os crimes que
possam ter cometido. |
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