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Artigo
escrito por Flavio Koutzii, para a Revista Teoria e Debate, uma primeira
avaliação
sobre as eleições no Rio Grande do Sul.
Vitória política
no RS: elementos para um balanço
Flavio
Koutzii
As
eleições no Rio Grande do Sul têm sua singularidade.
Qualquer balanço sobre o último processo eleitoral precisa
levar em conta, entre outros fatores, as tradições históricas
e políticas do Estado, as características da construção
do PT no RS, seu crescimento ao longo da década de 90 e os resultados
deste período, que expressam, entre outras coisas, o reconhecimento
da população mais pobre e dos setores médios sobre
aquilo que fizemos. A partir de 1989, com a eleição de Olívio
Dutra para a prefeitura de Porto Alegre, o PT iniciou uma ascensão
sistemática, que acabou se confirmando, no plano eleitoral, pelas
quatro sucessivas vitórias na capital, pelos oito anos na prefeitura
de Caxias do Sul (segunda cidade do Estado), pelos quatro anos em Pelotas
(terceira cidade do Estado), pelas importantes vitórias em várias
cidades do anel metropolitano e, sobretudo, pela vitória e experiência
de governar um Estado moderno no período 1999-2002.
Nossas virtudes, neste período, se expressaram concretamente na
melhoria da qualidade de vida, principalmente da população
mais pobre, através de serviços públicos e obras
estruturais, muitas delas decididas e ordenadas pelo Orçamento
Participativo (OP). A idéia de democratização das
decisões sobre os investimentos públicos transformou-se
em uma materialidade objetiva na vida de setores da população
até então extremamente marginalizados. Fomos responsáveis
por uma experiência única e inédita no mundo, que
foi a de implementar um OP em escala estadual, que atingiu quase 10 milhões
de pessoas e 497 municípios. É importante lembrar que, no
período do governo Olívio, tínhamos no máximo
30 prefeituras. E interviemos em 497 cidades, discutindo os interesses
da população, com apoio da igreja, de sindicatos e de movimentos
sociais. É preciso lembrar também os Fóruns Sociais
Mundiais que fizeram dessas experiências referências mundiais.
Com
tudo isto tivemos um papel decisivo na resistência à "avalanche
neoliberal".
Então, não é nem pretensioso, nem bairrista, dizer
que o patamar de compreensão política da população
gaúcha, que já tinha uma tradição importante
(o trabalhismo getulista e brizolista), estabeleceu uma relação
positiva com as nossas políticas, aprovando-as em sucessivas eleições.
É neste contexto que, a partir de 1994, estabelece-se uma polarização
indiscutível no Estado. O que o PT fez ou não fez passa
a ser uma referência incontornável no debate estadual, passando
a constituir um dos pólos. É neste universo de acumulação
positiva de mais de uma década que os nossos adversários
políticos do campo mais conservador, com a imprescindível
assistência do monopólio midiático representado pela
Rede Brasil Sul de Comunicações (RBS), passam a reposicionar
suas forças e seu modo de agir para tentar interromper a continuidade
desse acúmulo crescente.
O papel da RBS como agente político
Cabe, aqui, uma observação mais detalhada sobre o papel
da RBS. Mais do que uma mera afiliada da rede Globo, ela é uma
organização independente de grande potência e irradiação.
A capacidade de intervenção desse grupo na sociedade é
composta, nada mais nada menos, pelos seguintes instrumentos: 18 emissoras
de televisão aberta, 2 emissoras locais de televisão, 8
jornais diários, 26 emissoras de rádio, 2 portais de internet,
operação orientada para o agronegócio, editora, gravadora,
empresa de logística, empresa de marketing para jovens e fundação
de responsabilidade social. Essa rede de veículos articula sistemática
e organicamente a agenda dos setores mais conservadores no Estado. Nenhum
tema escapa. Soma-se a esse poderio quantitativo uma eficácia qualitativa
muito grande de intervenção, baseada em um exame escrupuloso
dos vários segmentos da sociedade gaúcha. O lançamento
do jornal Diário Gaúcho, no início do governo Olívio,
é um exemplo disso.
Voltado
para a população mais pobre de Porto Alegre e da Região
Metropolitana, além de sortear panelas e outros brindes entre seus
leitores, passou a articular diariamente, com uma linguagem simples e
direta, pautas em terrenos sensíveis, como saúde e segurança
pública. Assim, para cada segmento da sociedade, a RBS passou a
ter um veículo jornalístico específico, com uma linguagem
específica, que nos atacou dia e noite, noite e dia. Dito de outra
maneira, um jornal para cada setor e uma rádio para cada gosto.
Durante o governo Olívio Dutra, o grupo começou a definir
a pauta da oposição já no primeiro dia com a exploração
do episódio do aparecimento de uma bandeira de Cuba na sacada do
Palácio Piratini, na festa da posse. Todos os movimentos da esquerda
transformaram-se em temas de máxima repercussão: a bandeira
de Cuba, a queima do relógio da Globo (500 anos), os transgênicos,
MST, a Ford, o combate à corrupção na polícia,
apenas para listar alguns. A vida interna do PT e de seus governos foi
e segue sendo permanentemente devassada.
O
papel da RBS acaba sendo o de articular vários setores políticos,
institucionais e econômicos, homogeneizá-los na ofensiva
e unificar as palavras de ordem.
Derrota eleitoral, vitória política
É levando em conta este cenário, que quero sustentar que
o resultado do processo eleitoral deste ano no RS representou uma derrota
eleitoral e uma vitória política. Para entender porque é
legítimo afirmar que obtivemos uma vitória política
é preciso levar em conta o tamanho da dificuldade em que estávamos
metidos. Não é preciso nenhuma sofisticação
analítica maior para compreender que, na mesma proporção
em que conquistamos crescentes espaços e consolidamos nossa posição
como um dos pólos da disputa política no Estado, lutando
até o último voto com o bloco conservador em todas as últimas
quatro eleições, nossos adversários empreenderam
uma reação com a mesma intensidade (ou maior ainda) e em
sentido contrário. O cerco implacável a que foi submetido
o governo Olívio foi um exemplo disso. O nível brutal de
estigmatização deste governo foi operado sistematicamente
e em todas as áreas, desde o seu início.
O balanço do governo Olívio, com todas as políticas
positivas que avaliamos que fizemos, ficou impregnada por esse bombardeio
sistemático e os erros foram potencializados. E nós entramos
nas eleições de 2006 com essa impregnação,
esse estigma. Assim, nossas virtudes – pois algumas de nossas políticas
só foram exitosas porque ousaram enfrentar setores e pautas conservadoras
- também eram os nossos limites. Além disso, entramos com
uma outra conta, relativa a episódios do governo Lula. O impacto
da Reforma da Previdência, por exemplo, junto a setores importantes
de nossa base social, foi devastador. Não custa lembrar o peso
da classe média no RS, especialmente nas grandes cidades, e também
o alto peso relativo e irradiador de opinião do funcionalismo público.
Uma parte dele está no miolo da classe média. Nas nossas
vitórias, a capacidade de atrair esses setores foi decisiva.
O impacto da Reforma da Previdência entortou nossa posição
junto ao funcionalismo público. Isto, somado aos trágicos
eventos da crise política de 2005, provocou um grande rombo em
nossas posições. Mais alto havíamos chegado em termos
de reconhecimento junto à sociedade gaúcha, conseguindo
ampliar muito além de nossas fronteiras partidárias e de
nossos aliados mais tradicionais (como o PC do B e o PSB), maior foi o
tombo que sofremos. É importante lembrar àqueles que nos
criticavam por uma suposta incapacidade de ampliar nosso leque de alianças
que foi com esses setores sociais e com essas fronteiras partidárias
que conquistamos no RS (isto não quer dizer que a discussão
de ampliação não seja legítima). E, este ano,
quando muitos achavam que nós tínhamos acabado, fizemos
mais de 46% dos votos tendo o PC do B como aliado no primeiro turno, o
PSB no segundo e o apoio de mais de duas centenas de prefeitos e vice-prefeitos
de outros partidos, entre eles o PDT, o PMDB e, em menor escala, o PP
e o PTB. Não se pode esquecer o impacto do efeito dossiê
e da não ida ao debate do Presidente Lula. Nesta sociedade gaúcha
"tão a flor da pele" cortou o nosso ritmo de ascensão
na boca do 1º turno.
A ampliação política do 2° turno
Essa ampliação junto à base de outros partidos poderá
ter repercussões importantes. Há uma crise no PMDB, dividido
entre o grupo do deputado federal Eliseu Padilha, apoiador de primeira
hora da candidatura Yeda Crusius, e o grupo do governador Germano Rigotto,
que optou por uma posição de neutralidade no segundo turno.
Há ainda o tema da possibilidade de uma reconstrução
das relações com o PDT, afinal de contas 55 prefeitos trabalhistas
apoiaram Olívio Dutra no segundo turno. E, em terceiro lugar, mas
não menos importante, vimos a retomada de laços importantes
com os movimentos sociais do campo e da cidade. Ocorreram, portanto, alguns
deslocamentos políticos importantes no Estado, que ainda devem
ser melhor avaliados. O que é importante destacar é que
o fruto do segundo turno foi uma inteligente e bem-sucedida busca de ampliação.
O encontro no Hotel Embaixador, onde Olívio recebeu mais de 260
apoios, entre prefeitos e vice-prefeitos de outros partidos, é
o principal símbolo disso.
E foi com esse leque de alianças e apoios que enfrentamos o segundo
turno. Perdemos, mas fizemos 46% dos votos. Os números das votações
de Olívio e de Lula mostram, de modo objetivo, que o impacto dos
problemas relativos ao PT Nacional e ao governo federal acabou sendo maior
do que aquele relacionado com a pauta do governo Olívio. O ex-governador
Olívio obteve 2.884.092 votos no RS (46,06% dos válidos),
enquanto Lula atingiu 2.811.658 (44,65% dos válidos). Neste quadro,
é importante lembrar que vínhamos de duas derrotas importantes:
a eleição estadual de 2002 e a eleição municipal
de 2004, quando perdemos a prefeitura de Porto Alegre. Em 2004, fizemos
378.099 votos na capital. Em 2006, chegamos a 416.193, com uma vantagem
um pouco acima dos 5 mil votos. Além da retomada da maioria em
Porto Alegre, tivemos a volta das bandeiras vermelhas às ruas,
presença que havia sido atropelada pela crise política de
2005.
Mais que os números, a maioria de nós acha que a sincronia
Lula/Olívio X Alckmin/Yeda alimentou reciprocamente a clareza e
o significado tanto de Lula quanto de Olívio. Ficou mais nítido,
mais fácil e impediu que a direita nos infligisse uma grande derrota.
Considerando tudo o que foi dito acima, esse resultado está longe
de ser desprezível. Muita gente dizia que estávamos mortos
politicamente. Não estamos. Some-se a isso o significado da vitória
consagradora de Lula no país e a possibilidade que se abre para
o aprofundamento das políticas sociais que ajudaram a constituir
nossa identidade até aqui, e temos uma posição razoável
de onde podemos tentar reconstruir coisas que perdemos. A ampliação
que obtivemos no segundo turno (que tem o governo Olívio como uma
das causas fundamentais, pelo tipo de relação que estabeleceu
com os municípios, sem discriminar prefeitos de outros partidos),
e a divisão no campo daqueles que sempre estiveram unidos contra
nós talvez tenha aberto um flanco justamente quando menos esperávamos,
em um de nossos mais difíceis momentos. Por fim, é preciso
fazer uma observação sobre a grandeza e a qualidade política
de Olívio Dutra. Não se trata de "confete", mas
sim de um reconhecimento político sobre valores que sempre foram
muito caros a nós.
O valor que cultivamos em torno da importância da construção
política coletiva não deve impedir que reconheçamos
a dimensão de alguns dos nossos quando enfrentam dificuldades gigantescas
e conseguem resultados acima dos cálculos da obviedade política.
Esse é o caso dos companheiros que compuseram nossa chapa majoritária
– Olívio Dutra, Jussara Cony e Miguel Rossetto -, com uma
observação especial em relação ao primeiro.
Depois de uma dura saída do Ministério das Cidades, assumiu
a presidência do partido no RS, em um momento crítico de
nossa história, e aceitou uma candidatura ao governo do Estado
em condições fortemente adversas. Por meio de seu exemplo
e de sua conduta, Olívio acabou sendo uma espécie de catalisador
que uniu de forma singular e incomparável a história do
Rio Grande e a história das lutas sociais desse Estado. A sua candidatura
acabou unindo, também, a militância dos partidos que integram
a Frente Popular em torno da certeza de que é possível avançar,
recuperar o terreno perdido e retomar a construção do projeto
que tornou o RS fonte de esperança e inspiração para
a esquerda mundial.
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