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  Boletim informativo do deputado Flavio Koutzii/PT (58), 11 de dezembro de 2006.  
 


LEMBRANDO JANGO

Manifestação do Deputado Flavio Koutzii na tribuna da Assembléia Legislativa, no último dia 06/12/06, durante Grande Expediente em homenagem aos 30 anos da morte do ex-Presidente João Goulart, o Jango.

Falo em nome da bancada do Partido dos Trabalhadores. Às vezes, há coisas que parecem coincidência, mas que naturalmente são mais do que isso.

Este é um momento extraordinariamente oportuno, em que essa lembrança dos 30 anos se transforma em homenagem e iniciativa neste Parlamento. E me vou fazer entender um pouco mais adiante.

Considero que foi muito feliz o deputado ao fazer a retrospectiva histórica, citando algumas fontes, que, inclusive, são clássicas na reconstrução desse período recente – mas nem tanto – da história brasileira, e ao dar aquilo que nem sempre é fácil dar: os significados mais fundamentais. Digo isso porque a homenagem, às vezes, derrapa um pouco para o elogio ao homem ou à mulher que se homenageia; dele ou dela como indivíduo.

Todas as palavras aqui foram justas e oportunas, mas há uma situação que a torna similar com a trajetória de João Goulart. Refiro-me a uma época extraordinariamente importante da história deste País, na qual se tentou modificações essenciais. Trata-se de uma época em que a tentativa de mudar foi bloqueada e impedida com um golpe militar, assim como já havia acontecido com o cerco a Getúlio Vargas em 1954. Dez anos separam o suicídio e o golpe, 10 anos marcados por uma tentativa extraordinariamente importante do País de retomar o seu destino e começar a construir outro projeto.

Nesta homenagem, ressaltamos não só a memória da perda de João Goulart, mas até mesmo a memória dele como ser humano e da sua tristeza, dele como audacioso político que combinava as características de certa discrição e sobriedade com certo atrevimento ao estabelecer metas extremamente importantes para o País. Ele morreu depois, mas, quando foi retirado do poder por um golpe militar, anticonstitucional por definição, por uma violência militar inaceitável, mudou o curso da história do Brasil.

Essa é também a lembrança de outra tristeza, de outra possibilidade, de outro caminho que não aconteceu. Não temos como saber, caso ele houvesse se materializado, como seria o País. Se essas reformas fossem permitidas, qual seria a situação que teríamos hoje. E não se está a fazer ficção histórica – obviamente, não me proponho a isso –, mas, sim, a reconhecer, porque é da história e da vida, tanto dos adversários de Jango quanto de seus correligionários e do povo brasileiro, que depositou naquele período grandes expectativas, que se trata de um processo interrompido pela violência e pelo arbítrio.

Era isto que queria dizer, que esta homenagem vem com certa sintonia de coincidências e com uma oportunidade maior talvez do que muitas vezes, pois é disso que continua tratando o desafio que temos para o nosso País.

Teremos posições mais próximas ou mais divergentes, mas é no mesmo campo que acaba de se manifestar o povo brasileiro, que, frente a uma série de problemas, escolheu tentar uma segunda oportunidade num caminho de mudanças importantes para o nosso País. Oxalá isso seja possível.

Mais do que nunca, o nome de João Goulart e o período histórico referido devem ser lembrados, não como um passado que está indo para um museu, mas como um passado que materializa conteúdos, propostas, ambições e objetivos para a sociedade brasileira que são absolutamente atuais, absolutamente presentes e que estão na ordem do dia.

Por meio de um e-mail, uma companheira me chamava a atenção para o fato de que a nova turma de cadetes da Escola Militar, de aspirantes a oficiais, escolheu, como paraninfo para 2006, Garrastazu Médici. Há pouco, o coronel Brilhante Ustra fez o lançamento da sua versão, na qual tenta justificar o injustificável e a sua prática de torturas, e foi circundado por 200 altos oficiais desta região e outros tantos do centro do País.

Sempre fui extremamente respeitador, e os colegas sabem disso. Quando se faz uma homenagem, deixa-se a polêmica ou a divergência para outros momentos, que as temos tantos nesta Casa.

Minha maneira de saudar a iniciativa e, sobretudo, de reverenciar João Goulart é manifestar, em meu nome e em nome da minha bancada, uma absoluta repulsa a fatos como os que referi há pouco, porque ou a história tem sentido e é assimilada por nosso povo e nossa gente, ou não significa nada. Somos dos que acham que ela significa muito e tudo.

Das duas, uma: ou Jango tinha razão, ou Médici tinha razão.

Tenho certeza absoluta de que Jango é quem estava certo, pois escolheu o caminho da democracia e lutou contra o arbítrio. Por isso, reverenciá-lo é lembrar mais uma vez que a razão de ser da nossa atividade política é a busca da democracia, do desenvolvimento, do progresso e da liberdade para a nossa gente. Obrigado.

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