Falta
de recursos e de transparência
FLAVIO KOUTZII
Outra vez, o Governo Rigotto sobressalta os gaúchos ao anunciar
a volta da crise financeira do Estado. A bem da verdade, ela nunca se
afastou. Foi anestesiada pelo estratagema de puxar para o Tesouro estadual
os valores depositados em juízo, enquanto as ações
transitam. Este volume de recursos, entre R$ 400 milhões e R$
600 milhões - não se sabe ao certo porque o Governo não
divulga - , permitiu que fossem pagos em dia os salários a partir
de março.
Sabemos agora que a fonte secou. E o pior: os depósitos judiciais
utilizados pelo Governo passam a ser computados como débito.
À medida em que cada sentença for publicada, o dinheiro
correspondente deverá ser reposto pelo Governo ou pelo Banrisul,
seu segurador nesta operação. Aliás, é a
segunda "fria" em que o Governo coloca o "banco que une
os gaúchos". Lembremos os famosos empréstimos do
13º salário.
Voltamos, portanto, à amarga realidade. É possível
que os salários voltem a atrasar, o Governo admite que não
tem reservas para o 13o e os reajustes do funcionalismo serão
remetidos às calendas gregas, sem nenhuma alusão ao clima
olímpico. Chama atenção, de um lado, que o discurso
alarmista é pronunciado com uma inquietante passividade; de outro,
que os dados oficiais para que se possa diagnosticar a real situação
financeira do estado escasseiam na mesma proporção dos
recursos públicos.
A arrecadação do ICMS sofre queda sobre queda. O resultado
financeiro do semestre apresentou um decréscimo de 4,8% na arrecadação
do ICMS em relação aos primeiros seis meses de 2003. No
ano passado já ocorrera uma queda de 1,35% em relação
a 2002. Em termos reais, o Rio Grande do Sul está arrecadando
6% a menos de ICMS do que no último ano do Governo Olívio.
Estes números são tratados pelos fontes oficiais como
resultado de indomáveis forças da natureza sobre as quais
não há nada a fazer. No máximo, referem as perdas
decorrentes da Lei Kandir, que desonerou as exportações
do pagamento de ICMS, sob os aplausos de muitos que hoje estão
no Piratini, é bom recordar. Outra vez, omitem os drásticos
resultados da política de favores fiscais que o atual Governo
tem praticado.
Na Lei de Diretrizes Orçamentárias, O Governo consignou
a meta de reduzir os benefícios fiscais de 36,5% do ICMS potencial,
índice de 2002, para 32,6% em 2005, o que só pode ser
piada. Em primeiro lugar, no período de 97 a 2002, o percentual
de renúncia oscilou em torno de 40% e em alguns anos foi superior
a isso, fruto da aprovação da Lei Kandir e das generosas
concessões fiscais do Governo Britto. Estranhamente, o dado relativo
ao exercício de 2003 não foi publicado no boletim técnico
da Fazenda estadual.
A tendência é que este percentual se eleve mais ainda,
atingindo níveis insuportáveis, em virtude da chamada
"farra de setembro" do ano passado, quando foram aprovados
em rito sumário 133 projetos de incentivos pelo Fundopem, sem
que suas informações técnicas e repercussões
financeiras fossem avaliadas pelas áreas técnicas e dadas
ao conhecimento público. A "caixa preta", não
por acaso, diz respeito às renovações de benefícios
concedidos na época do Governo Britto, incluindo-se aí
os chamados Fundopem turbinados, ou seja, a fundo perdido.
Nada menos de 89,5% dos benefícios ou isenções
concedidos pelo atual Governo ficam nas mãos de apenas quatro
empresas. São R$ 2,1 bilhões que deixam de entrar nos
cofres públicos. Portanto, após conceder novos benefícios
que fruirão nos próximos anos, comprometendo as finanças
públicas, como o Governo pode prometer a diminuição
da renúncia fiscal?
O pior é que não se pode sequer avaliar o custo/benefício
destas operações, porque o Governo também não
informa o que produziram os favores fiscais em termos de empregos gerados,
crescimento da renda ou valor agregado. Um pedido de informações
enviado pela bancada do PT foi respondido de forma incompleta.
Outro pedido para saber o valor dos depósitos judiciais utilizados
pelo Governo sequer foi respondido. É um informação
importante, já que esse montante passa a integrar a dívida
pública.
Como se dizia antigamente, a desgraça nunca vem sozinha. No caso,
a crise financeira vem acompanhado de uma inquietante crise da transparência.