"Crise
do gás foi mais de política interna do que política
externa" - O BRASIL NO MUNDO – Parte 2
Para
o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, episódio
da nacionalização do gás boliviano gerou,
além de sentimentos xenófobos, uma crise de política
interna muito mais do que de política externa. Ele avalia
que governo brasileiro agiu corretamente, reconhecendo direito
da Bolívia à soberania sobre seus recursos naturais
e abrindo negociações.
Marco Aurélio Weissheimer - Carta Maior
21/05/2006
PORTO ALEGRE - "As políticas executadas pelos governos
neoliberais na América do Sul e na região amazônica
não atingiam o cerne da questão econômica
que consiste na construção e no desenvolvimento
do mercado interno e no fortalecimento da coesão social.
Fundaram suas esperanças em uma inserção
retrógrada no mercado internacional, tentando uma volta
aos ‘anos dourados’ da exportação de
produtos primários e da fictícia estabilidade do
padrão-ouro a partir de ‘novos’ avatares, como
foi o ‘currency board’ (paridade fixa) argentino.
A abertura radical de suas economias ao capital multinacional
e as privatizações aceleradas causaram o enfraquecimento
empresarial local e a desestruturação dos já
frágeis Estados nacionais, gerando temporariamente, de
outro lado, grandes ingressos de capital estrangeiro, o que os
iludiu" (Samuel Pinheiro Guimarães, DESAFIOS BRASILEIROS
NA ERA DOS GIGANTES, p.177, Editora Contraponto).
Essa passagem do recém-lançado livro do embaixador
Samuel Pinheiro Guimarães, secretário geral do Ministério
de Relações Exteriores, indica a relação
que há entre as escolhas internas de um governo e sua política
externa. A maioria das críticas contra a política
externa do governo Lula vem de setores que implementaram e defenderam
com entusiasmo as políticas citadas pelo embaixador. É
à luz, delas, portanto, que deve se procurar entender tanto
as críticas quanto as orientações da política
externa do atual governo. Em sua palestra, em Porto Alegre, Samuel
Pinheiro Guimarães, procurou responder a essas críticas,
abordando temas como a pretensão do Brasil de ocupar uma
vaga no Conselho de Segurança da Organização
das Nações Unidas (ONU), o projeto de integração
da América do Sul, o estreitamento de relações
com países da África, Ásia e Oriente Médio
e, mais particularmente, o caso da nacionalização
das reservas de gás e petróleo na Bolívia.
O CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU
A questão do ingresso do Brasil como membro permanente
do Conselho de Segurança da ONU. Guimarães contextualizou
esse tema no âmbito do debate sobre a reforma das Nações
Unidas, proposta lançada pela secretaria geral da organização.
"Este é um desejo de muitos países, como Alemanha,
Índia e Japão, que, conjuntamente com o Brasil formam
o chamado G-4, hoje um pouco abalado pela posição
japonesa", destacou. Segundo ele, as resistências e
oposições ao ingresso deste ou daquele país
no conselho são normais e não acontecem somente
em relação ao Brasil. "Na Europa, a candidatura
alemã sofre a oposição de países como
a Itália e a Espanha. A da Índia sofre oposição
do Japão. Isso é natural. É um equívoco
achar que não podemos ter essa pretensão porque
outros estados têm uma opinião diferente. Em geral,
não há unanimidade em torno destas questões".
Para defender a legitimidade da pretensão brasileira, Guimarães
recorreu a uma comparação.
"Em uma reunião de condomínio, os proprietários
se reúnem para decidir como o seu prédio deve ser
e como deve funcionar. Os inquilinos não têm voto
nestas reuniões e só lhes cabe cumprir o que for
decidido pelos proprietários. O Conselho de Segurança
da ONU funciona de modo semelhante. O que nós queremos
é que o Brasil possa participar do processo decisório
deste tipo de condomínio", resumiu. O embaixador também
rebateu as avaliações segundo as quais o Brasil
vem sendo prejudicado por essa pretensão e que teria sofrido
uma derrota. Segundo ele, não cabe falar em derrota pois
não houve votação na ONU para decidir sobre
a ampliação do Conselho de Segurança. É
um tema que ainda está em discussão. "Quando
houver uma votação e se nosso voto for vencido,
aí alguém poderá falar em derrota, mas, mesmo
aí, não há nada trágico para o país.
Quando se entra numa votação, pode-se ganhar ou
perder. Esse é o jogo democrático".
DIMINUIÇÃO DAS DISPARIDADES SOCIAIS
Guimarães também comentou as críticas às
viagens do presidente Lula ao exterior. Na sua avaliação,
essas viagens têm contribuído para a abertura de
novos mercados para o Brasil e, conseqüentemente, para a
diminuição da vulnerabilidade do país a choques
externos. Além disso, elas também estão relacionadas
ao desafio da diminuição das disparidades sociais
internas e externas, particularmente através da iniciativa
global contra a fome, que conta com o apoio de vários países.
"Não podemos esquecer que hoje cerca de 800 milhões
de pessoas no mundo vivem com menos de um dólar por dia".
Ele destacou ainda os laços históricos que o Brasil
possui com o continente africano ("Em termos raciais, o Brasil
é a segunda maior nação africana do mundo")
e o compromisso do país em auxiliar na luta contra a pobreza
e a miséria nesta região, especialmente através
da experiência brasileiras nas áreas da agricultura,
saúde e educação.
Além dos laços históricos e dos acordos de
cooperação, ele chamou a atenção também
da importância política de o Brasil contar com o
apoio de um maior número de Estados em suas reivindicações
em nível global. "A África tem 53 estados,
um pouco menos do que um terço do total de estados do mundo.
Nas negociações internacionais é muito importante
que o Brasil tenha o maior número possível de aliados
e votos". Por fim, falou sobre a abertura de novos mercados
para empresas brasileiras na África. Recentemente, exemplificou,
a Vale do Rio Doce fechou um negócio de aproximadamente
US$ 1,5 bilhões com Moçambique. Vai levar minério
de ferro do Brasil para o país africano, processá-lo
lá e exportá-lo para a Ásia. E ressaltou
o caráter estratégico do aprofundamento de relações
com países como Índia, China e África do
Sul, "nações que têm muitas semelhanças
como Brasil; são grandes Estados na periferia do sistema".
A MISSÃO NO HAITI
Sobre a participação brasileira na missão
de paz no Haiti, Samuel Pinheiro Guimarães observou, em
primeiro lugar, que a missão foi uma decisão aprovada
por unanimidade no Conselho de Segurança da ONU. O Brasil,
acrescentou, foi convidado pelo secretário geral da ONU,
Kofi Anan, para dirigir a missão, e consultou previamente
todos os países da região sobre o que eles pensavam.
"Todos concordaram. O Brasil está lá há
mais de um ano, nenhum soldado brasileiro morreu e nenhum haitiano
foi morto por soldado brasileiro. Apesar de todas as dificuldades,
o país conseguiu realizar eleições gerais
e escolher um novo governo. O que é importante enfatizar
é que não estamos lá a serviço de
nenhum Estado. O Brasil já participou de mais de dez missões
de paz, com resultados muito bons, como foi o caso da recente
missão no Timor Leste, muito elogiada pela comunidade internacional",
argumentou Guimarães.
A
política externa brasileira enfrenta três situações
todos os dias, explicou. A primeira delas é que o Brasil
tem que reagir às iniciativas de outros países.
Ele lembrou quando, no início do governo Lula, os EUA decidiram
intervir militarmente no Iraque e o Brasil foi contra, apesar
de todas as pressões. "Foi uma demonstração
de independência de nossa política externa".
Em segundo lugar, o país precisa ter iniciativas, como
o projeto de integração da América do Sul,
o aprofundamento das relações com a África,
o Fórum Índia-Brasil-África do Sul e a Conferência
América do Sul-Países Árabes. E, em terceiro
lugar , precisa transformar as relações tradicionais
do Brasil (com Europa e EUA), fazendo com que elas se tornem mais
favoráveis. É o caso das negociações
na Organização Mundial do Comércio (OMC),
da luta pela redução dos subsídios agrícolas
e em defesa de uma nova geografia comercial.
O
CASO BOLÍVIA
No âmbito das reações a iniciativas de outros
países, Guimarães analisou o caso da nacionalização
das reservas de gás e petróleo, na Bolívia.
Segundo ele, a repercussão no Brasil da decisão
do governo Evo Morales foi um caso de política interna
e não externa. "Houve claramente um esforço
da oposição para desconstituir a política
externa, considerada um dos pontos altos do governo Lula. Além
disso, há um outro esforço em curso, em âmbito
internacional, para tentar separar o Brasil da Venezuela",
observou. O embaixador lembrou que a questão do gás,
na Bolívia, é muito mais antiga que o governo Evo
Morales. O primeiro acordo sobre o gás boliviano data de
1938. E o acordo para a construção do gasoduto Brasil-Bolívia
é de 1993. "Essa relação não
foi criada pelo atual governo", recordou. Inclusive, acrescentou,
durante o governo Lula, os investimentos da Petrobras na Bolívia
foram muito pequenos. "Não houve aprofundamento da
dependência", garantiu.
Além disso, prosseguiu, o contrato com a Bolívia
prevê renegociação de preços a cada
três meses e há uma cláusula que prevê
a reformulação do sistema de preços a cada
cinco anos e que, a qualquer momento, uma das partes pode propor
revisão dos preços. Assim, observou, o governo boliviano
estava amparado em termos legais. Quanto ao aumento de impostos,
classificou como um ato de soberania. "Se ele convém
aos nossos interesses ou não, isso é outro problema".
O que está ocorrendo na Bolívia, assinalou ainda
Guimarães, é a afirmação dos movimentos
indígenas após uma experiência de políticas
neoliberais extremamente desastrosas. "É importante
lembrar que, até 1952, havia um regime de servidão
na Bolívia, onde as propriedades eram vendidas junto com
os índios que as habitavam. E estamos falando de um país
onde cerca de 66% da população é indígena
e que elegeu um presidente indígena com ampla maioria no
Parlamento".
"Aqui no Brasil, gerou-se uma reação xenófoba,
inclusive com alguns defendendo o uso da força. Foi uma
crise de política interna muito mais do que de política
externa. O governo brasileiro agiu corretamente, reconhecendo
o direito da Bolívia à recuperação
da soberania sobre seus recursos naturais e abrindo negociações.
E elas avançaram. Haverá compensação
por qualquer desapropriação e os preços serão
renegociados. O que é surpreendente é que pessoas
que pretendiam privatizar a Petrobras há pouco tempo tornaram-se
ardorosos defensores da empresa", ironizou o embaixador.
Sobre as relações com o presidente da Venezuela,
Hugo Chávez, Guimarães, além de apontar um
esforço internacional para separar o Brasil daquele país,
rebateu de modo expeditivo a idéia de que haveria uma disputa
pela liderança na América do Sul: "O presidente
Chávez tem a maior estima em relação ao Brasil
e plena consciência do que nosso país representa".
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