As
múltiplas faces da integração - O BRASIL
NO MUNDO – Parte 3
O
futuro do processo de integração da América
do Sul vai muito além da assinatura de acordos comerciais
e protocolos de intenções. Estes são passos
necessários sem dúvida, mas absolutamente insuficientes
para atingir o que todos querem. E o que todos querem afinal?
Marco Aurélio Weissheimer
25/05/2006
A decisão do governo boliviano de nacionalizar as reservas
de gás e de petróleo trouxe para a ordem do dia
o debate sobre o projeto de integração da América
do Sul. A inevitável contaminação política-eleitoral
desse debate, no cenário brasileiro, contribuiu para encher
de fumaça o ambiente e misturar alhos e bugalhos. Um dos
sub-produtos indesejáveis desta contaminação
foi o florescimento de sentimentos chauvinistas e nacionalistas
que acabaram por reduzir o tema da integração a
algo muito menor do que ele é na verdade. Infelizmente,
setores da mídia têm contribuído para alimentar
essa confusão, transformando factóides em verdades,
ignorando informações fundamentais e criando monstros
onde o que há são diferenças regionais, desigualdades,
assimetrias econômicas e questões históricas
cuja complexidade não pode ser traduzida por estereótipos,
simplificações e preconceitos.
A
mistura destas três figuras – estereótipos,
simplificações e preconceitos – produz fenômenos
bizarros. O presidente boliviano, Evo Morales, já foi retratado
por chargistas brasileiros como um fora-da-lei, aliado do Primeiro
Comando da Capital (PCC), ou, pior ainda, como uma variante indígena
do nazismo. O preconceito racial sobre o fato de um "índio"
que não usa gravata chegar ao poder não consegue
nem ser disfarçado. As declarações patrióticas
contra Evo e Hugo Chávez multiplicaram-se pela mídia.
A política externa brasileira foi taxada, ao mesmo tempo,
de ingênua, populista e incompetente. E alguns fatos fundamentais
ficaram à sombra. Um dos principais foi aquele que informa
que a escolha brasileira pelo gás boliviano não
foi uma invenção do atual governo, mas sim do anterior
que assinou os contratos para a construção do gasoduto.
Outro foi o de que a Bolívia está tentando fazer
o que todos os grandes países fazem, a saber, tentar defender
seus interesses estratégicos. O problema parece ser: quem
são os bolivianos para ter essa pretensão?
TENTANDO
LIMPAR O TERRENO
Mas
toda essa fumaça carregada de estereótipos e preconceitos
serve ao menos para uma coisa, a saber, mostrar a complexidade
e as imensas dificuldades colocadas diante de qualquer projeto
de integração regional. Basta fazer uma conta simples:
tome-se todas essas manifestações, no âmbito
da sociedade brasileira, e multiplique-se pelo número de
países do território a ser integrado. O resultado
dessa operação é um aglomerado de sentimentos
chauvinistas, visões distorcidas e simplificações.
Como se isso não bastasse, é preciso considerar
ainda os diferentes interesses em jogo e as assimetrias reais
entre as economias da região. Assim, o primeiro passo para
tentar entender o que está em jogo nestes processos de
integração é tentar limpar o terreno o máximo
possível, uma tarefa que sempre permanecerá incompleta.
Esse é um dos trabalhos mais importantes da diplomacia,
trabalho esse que tem uma dificuldade crônica de comunicação
com a sociedade.
Um
dos primeiros passos para essa limpeza de terreno é reconhecer
que não existe somente um projeto de integração
no continente americano. Segundo o professor Marco Cepik, pesquisador
na área de política internacional e professor do
Departamento de Ciência Política da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), há três grandes
projetos em disputa no continente (sendo que dois deles com capacidade
de articulação entre si): o da Área de Livre
Comércio das Américas (defendido pelos EUA e atualmente
bastante enfraquecido, principalmente a partir do resultado da
última Cúpula das Américas, realizada em
Mar del Plata), o da Alternativa Bolivariana para as Américas
(proposto pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, com
o apoio já declarado de Cuba e Bolívia), e o da
Comunidade Sul-Americana de Nações (que expressa,
em suas linhas gerais, a posição brasileira). Não
há uma incompatibilidade entre esses dois últimos,
mas tampouco há um alinhamento automático.
ALBA
E MERCOSUL
O
presidente da Venezuela, Hugo Chávez, é o principal
defensor da necessidade de uma articulação entre
a ALBA e o Mercosul, como eixo em torno do qual se constituiria
a Comunidade Sul-Americana de Nações. Essa semana,
a Venezuela deu um importante passo nesta direção,
ao assinar, em Buenos Aires, um protocolo que estabelece a adesão
plena do país ao Mercosul. Através desse protocolo,
a Venezuela estabeleceu um prazo de quatro anos para se integrar
completamente ao bloco sul-americano, com todos os direitos e
obrigações decorrentes desta condição.
Segundo o documento assinado em Buenos Aires, Brasil e Argentina
se comprometeram a eliminar tarifas para o comércio com
a Venezuela até 1° de janeiro de 2010. Em troca, e
levando em conta as assimetrias entre as respectivas economias,
a Venezuela eliminará as tarifas sobre produtos brasileiros
até 1° de janeiro de 2012. E a Bolívia pode
seguir o mesmo caminho da Venezuela, ingressando no Mercosul como
membro-pleno.
O
protocolo de Buenos Aires confirma o afastamento da Venezuela
da Comunidade Andina das Nações (CAN). Chávez
decidiu abandonar a CAN após a decisão dos governos
do Peru e da Colômbia de assinar Tratados de Livre Comércio
com os Estados Unidos. Mas, se por um lado, Chávez se aproxima
do Mercosul, por outro, ele toca sua agenda própria, tendo
Cuba como um parceiro central. Essa semana, Chávez e o
vice-presidente de Cuba, Carlos Lage, acertaram oito convênios
para a execução de projetos sociais e produtivos
na Bolívia. O governo boliviano assinou com Venezuela e
Cuba o Tratado de Comércio dos Povos (TCP), como alternativa
ao Tratado de Livre Comércio (TLC) proposto pelos Estados
Unidos. O TCP pretende priorizar objetivos sociais, principalmente
nas áreas de educação e saúde, respeitando
a soberania de cada Estado. Seu horizonte estratégico é
a constituição de um eixo político reunindo
os governos dos três países na direção
da construção da ALBA.
Venezuela
e Cuba oferecem não somente ajuda para projetos econômicos,
mas também apoio para planos sociais, como o programa de
cirurgias oftalmológicas "Operação Milagre",
que já atendeu a mais de 800 pessoas na Bolívia.
Cada operação custa entre 500 e 800 dólares
na Bolívia, chegando a 2.200 dólares em outros países.
Os programas sociais também incluem planos de alfabetização.
Com o apoio desses dois países, a Bolívia pretende
ser declarada zona livre de analfabetismo em 2007, enquanto que
a Operação Milagre pretende atender cerca de 100
mil pessoas. Médicos cubanos estão trabalhando no
país, assim como ocorre na Venezuela. Quando eles saírem
os centros médicos especiais seguirão operando com
médicos bolivianos. Essas políticas não representam,
obviamente, nenhum antagonismo em relação aos projetos
do Mercosul e da Comunidade Sul-Americana de Nações.
Deveriam ser largamente divulgadas e elogiadas pela sua repercussão
social, o que não ocorre, pelo menos não entre os
grandes meios de comunicação no continente.
OS
PROBLEMAS DO MERCOSUL
Mas
a seletividade midiática não é o principal
obstáculo aos projetos de integração da América
do Sul. Há problemas concretos e complexos entre os países
do continente, como aqueles envolvendo Uruguai e Argentina em
torno da questão das indústrias de celulose, e aqueles
envolvendo Uruguai e Paraguai, de um lado, e o resto do Mercosul
de outro. Esses dois países reclamam que as assimetrias
econômicas entre eles e os dois maiores países do
bloco, Argentina e Brasil, não estão sendo resolvidas,
e reivindicam o direito de assinar Tratados de Livre Comércio
bilaterais com outros países, o que é vetado pelas
regras do Mercosul. O Uruguai está em vias de assinar um
tratado bilateral de comércio com os EUA e já ameaçou
sair do bloco. Na avaliação de Marco Cepik, essa
é uma ameaça real e independe da coloração
política do governo. Segundo ele, o Uruguai vive uma situação
sui generis e não tem muitas alternativas para crescer
no curto prazo.
"É
um pequeno país que virou uma plataforma exportadora de
uma ou duas commodities. O que foi o gado em um passado recente
hoje está passando a ser a celulose",avalia. Quando
o presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, expressa
simpatia pelo modelo chileno, isso não ocorre por acaso.
"O modelo chileno funciona bem para um país pequeno
como o Uruguai, cuja população é menor do
que a do Rio Grande do Sul. Num país com esse perfil, duas
plantas industriais podem fazer toda a diferença",
diz Cepic, numa referência à polêmica envolvendo
a instalação de fábricas de celulose na região
do rio Uruguai. O conflito entre a Argentina e o Uruguai foi parar
na Corte de Haia e, dias atrás, Tabaré Vázquez
disse, rispidamente, que não havia mais o que conversar
com Buenos Aires. Eis aí, um problema real para o Mercosul
resolver, um problema que diz respeito também ao resto
do continente, principalmente pelo tipo de solução
que vier a ser dado a ele.
LACUNAS
INSTITUCIONAIS E CULTURAIS
A
resposta aos problemas passa pela superação de deficiências
que seguem atrapalhando o Mercosul, entre elas a ausência
de um Tribunal de Arbitragem e de um parlamento ativo. São
duas instâncias indispensáveis em qualquer bloco
regional e, é claro, não são construídas
da noite para o dia. Mas os déficits não são
apenas institucionais. Há alguns, de natureza histórico-cultural,
que nós, brasileiros, conhecemos bem. O Brasil "descobriu"
seus parceiros de língua hispânica há pouco
tempo. E trata-se de uma descoberta ainda tímida e insuficiente.
Conta-se que o escritor Eduardo Galeano não gostava (talvez
ainda não goste) de dar entrevistas para jornalistas brasileiros
pois eles desconheciam completamente a história de seu
país. Não é um problema exclusivo dos jornalistas,
é verdade. Se mal conhecemos a história de nosso
próprio país, o que dizer em relação
aos nossos vizinhos. E quando a ignorância se mistura ao
preconceito, não há integração possível.
Assim,
o futuro do processo de integração do continente
vai muito além da assinatura de acordos comerciais e protocolos.
Estes são passos necessários sem dúvida,
mas absolutamente insuficientes para atingir o que todos querem.
E o que todos querem afinal? Uma boa resposta a essa pergunta
é dada pelo embaixador Samuel Pinheiro Guimarães,
secretário geral de Relações Exteriores do
Brasil. Em seu novo livro "Desafios Brasileiros na Era dos
Gigantes", ele escreve a propósito dos objetivos centrais
da política externa brasileira: "Os quatro grandes
desafios do Brasil são a redução, gradual
e firme, das extraordinárias disparidades sociais, a eliminação
das crônicas vulnerabilidades externas, a construção
do potencial brasileiro e a consolidação de uma
democracia efetiva, em um cenário mundial violento, imprevisível
e instável". Essa caracterização se
aplica também, em maior ou menor grau, a todos nossos vizinhos
da América do Sul. Compreendê-la como um desafio
comum seria um passo gigantesco na direção da integração
do continente.
Marco
Aurélio Weissheimer é jornalista da Agência
Carta Maior (correio eletrônico: gamarra@hotmail.com)
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