ENTREVISTA
DO DEPUTADO FLAVIO KOUTZII
publicada hoje, 26 de junho de 2006,
nas páginas 20 e 21 do Jornal do Comércio.
Política
26/6/2006
Koutzii
afirma que o PT adquiriu novo perfil de centro-esquerda
Gisele
Ortolan e Paula Coutinho
O deputado estadual Flávio Koutzii, em seu quinto mandato
pelo PT, faz nessa entrevista uma reflexão sobre o governo
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o futuro do partido.
Ao comentar o impacto da crise política, o parlamentar
reconhece os erros cometidos por alguns integrantes da legenda,
mas relaciona elementos que dão sustentação
para a conquista de um segundo mandato petista. Por outro lado,
admite que o PT não é mais o mesmo. "O partido
começa a deslizar lentamente para um perfil mais ao centro-esquerda".
A mesma crise que provocou a mudança na trajetória
da sigla, foi decisiva na opção do deputado Flávio
Koutzii de não se candidatar a um novo mandato. "É
um gesto percebido de diferentes maneiras. Não estou saindo,
mas também não estou ficando".
Jornal
do Comércio - Como o senhor analisa o quadro eleitoral
no País? O presidente Lula deve assegurar o seu favoritismo
até outubro?
Flávio Koutzii - O fato mais notável
é que desde o início deste semestre, o presidente
Lula vai afirmando crescentemente, através das pesquisas,
o seu favoritismo. O Instituto Sensus tinha indicado a relação
da melhor situação de Lula com 42,7% de intenção
de voto. O DataFolha com 45%, o Ibope com 48% e o Vox Populi com
49%. Depois da casa cair dez vezes, se mantém a preferência
de votos em todos os institutos de pesquisa importantes deste
País. Tenho algumas hipóteses para esse tão
forte e, em certa medida, surpreendente resultado. Uma delas é
a conseqüência efetiva da grande horizontalidade de
políticas como o programa Bolsa-Família, atendendo
a 8,5 milhões de famílias, ou seja, 40 milhões
de pessoas. Esse programa representa em dinheiro a diferença
para milhões de famílias de comer ou não
comer. Poderia ser uma frase demagógica, mas se é
verdade, já basta. O Bolsa-Família tem uma capacidade
de irradiação na camada mais pobre. Há também
o programa Luz Para Todos, que beneficiou 3,3 milhões de
pessoas.
JC - O governo conseguirá enfrentar as
críticas da oposição, que tem classificado
de paternalistas as políticas sociais?
Koutzii - Há uma espécie de complô
dos grandes jornais que combatem sistematicamente o governo enquanto
projeto político. Não falo daqueles que apontam
ou denunciam gravíssimos problemas de práticas do
governo e do PT. Alguns encaram até como xingamento a identificação
do governo com os pobres. A grande massa eleitora mais desfavorecida
acha que ele é dos pobres. Sem falar sobre tudo o que se
deve reconhecer sobre esse fato, porque ele não é
um produto de marketing, mas de suas políticas. Então,
é diferente dizer isso agora, depois de três anos
e meio de governo. Neste tema das camadas mais pobres e oprimidas,
seja porque elas reconhecem que a presidência prestou atenção
nelas, seja pela identificação que a direita atribui
ao governo como assistencialista, me atrevo a substituir o chamado
'instinto de classe' das velhas categorias marxistas pela expressão
'instinto de miséria'. Isso diz respeito àquele
cidadão que tem certa consciência e não se
deixa 'pisar nos calos'. Pelo 'instinto de miséria', o
cidadão nota alguns sinais que vão ao encontro dele
e outros que vão na direção de aniquilá-lo.
Então não é um 'instinto de classe', é
o instinto daqueles que vivem em uma condição miserável,
e isso está associado àquela noção
de pobres e ricos.
JC - O senhor concorda com a visão de
alguns petistas de que o governo deve dar menos ênfase na
campanha às questões econômicas, tão
propaladas durante a era Palocci?
Koutzii - Não estou no circuito que está
elaborando estas questões. Mas, independente da minha opinião
que em geral é crítica da área econômica,
reconheço que foi correto o programa de estabilização
para evitar um pré-colapso que estava anunciado. O que
não foi aceitável é que não houve
uma segunda etapa, uma transição. Mas hoje, depois
de todos os problemas, começa-se a trabalhar a hipótese
de que possa haver inflexões. Sobre isso vale a pena falar.
Acho que na campanha não se irá esconder o trabalho
de estabilização que permitiu, a partir de um certo
momento, avançar. Não acredito que Lula irá
falsear o que aconteceu, porque isso seria um erro político.
Ele deverá dizer o que pode avançar realmente em
relação ao que já fez. Deverá transformar
o tema da continuidade no da possibilidade de amadurecimento e
aprofundamento de algumas questões econômicas, sobretudo
das políticas sociais. Uma das prováveis superioridades
da campanha de Lula é que ele poderá apontar inflexões
sobre o que já fez. E poderá dizer: olhem também
as coisas que eu não fiz e disse que não iria fazer
e me orgulho de não ter feito. Como por exemplo, continuar
as privatizações 'de joelhos' frente ao 'grande
império', o que foi uma marca do governo anterior. Lula
faz uma política internacional independente com grandes
acertos. Ele também foi dramaticamente testado, inclusive
por algumas de suas escolhas inadmissíveis. No entanto,
ele tem elementos que permitem à sua sobrevivência.
E, a parte que permitiu que ele sobrevivesse, também o
ajuda a andar. Um dos grandes desafios será o discurso
de partidos como o PFL, que, nesse momento, está apresentando
um requentado de acusações, mas com uma completa
omissão de proposições.
JC - Pela primeira vez, o Brasil tem um governo
de esquerda. Como foi enfrentar a direita enquanto oposição?
Koutzii - A direita faz uma ofensiva em cima
de fatos que ela não inventou, mas superdimensionou. Muito
embora vários setores afirmem que a culpa é da direita,
reconheço que é nossa na medida em que somos responsáveis
por determinados fatos. Em cima disso, eles tripudiaram. A excitação
da direita conservadora em perceber a possibilidade de liquidar
a alternativa de esquerda, fez com que ela exagerasse. Houve uma
saturação, eles passaram do ponto e o excesso acaba
sendo um elemento que desencadeia um sistema de alerta. Além
disso, houve uma segunda razão de perda de autoridade do
discurso de direita. A convocação extraordinária
e o não cumprimento da pauta, além das absolvições
dos supostos envolvidos com o mensalão e, mais recentemente,
as irregularidades na compra de ambulâncias, acabaram dissolvendo
a respeitabilidade e autoridade do Congresso Nacional. Esse tema
teve efeito em dois níveis, pois tirou a autoridade das
críticas da direita e relativizou o que pesava sobre o
presidente.
JC - E durante o processo eleitoral, como o senhor
projeta o embate com a direita?
Koutzii - Um dos erros da direita é, muito
provavelmente, a candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB), que, segundo
a análise geral, não decola. Temos episódios
na história recente muito marcados. Um deles é o
editorial do jornal O Globo, de março de 1989, que dizia
o seguinte: 'prestem atenção, tem um tal de Leonel
Brizola (PDT) e Lula vindo aí. Temos que unificar em torno
de alguém'. Daí, surgiu a candidatura de Fernando
Collor, unificando o outro campo. Chegou ao ponto de alguém
com a estatura de Ulysses Guimarães (PMDB) não passar
dos 3% das intenções de voto. Faço isso para
estabelecer uma comparação. No início do
processo eleitoral passado, Roseana Sarney (PFL), teve uma grande
ascensão e sua candidatura foi implodida pelos dossiês
de José Serra (PSDB). Estou falando de fenômenos
análogos sobre o tema, já que me atrevo a apontar
os erros da direita. Há um mês e meio, por exemplo,
se cogitou a troca de Alckmin por Serra. Pesa também na
situação crescentemente favorável a Lula,
a ruindade do candidato do campo da direita. Não estou
ofendendo Alckmin enquanto pessoa, mas como figura política.
JC - Qual é o futuro do PT, tanto em termos
eleitorais, quanto como instituição partidária?
Koutzii - O PT está juntando todas as
suas energias e alguns cacos para enfrentar a eleição.
A grande maioria dos petistas acha, provavelmente com razão,
que nesse momento temos que nos concentrar na batalha eleitoral
e, em 2007, partir para o terceiro congresso da história
do partido, no qual faremos o balanço e chegaremos às
grandes conclusões. A minha posição é
de compreensão desta dinâmica e do realismo que ela
traz embutido. Ao escolher este caminho, o partido, que não
é homogêneo, decide não renunciar à
sua existência. Escolhe através de seus representantes
mais reconhecidos, qualificados e combativos garantir a possibilidade
de governar este País, tentar retomar o governo deste Estado
e manter na esfera da política dezenas de quadros que construiu
nas últimas duas décadas. Vou aportar a minha modesta
contribuição, que não inclui minha candidatura,
mas meus esforços e meu apoio aos candidatos. Ao escolher
esse caminho, que talvez seja o melhor, dificilmente não
serão consolidadas algumas das novas características
que o PT assumiu de fato.
JC - Quais são essas novas características?
Koutzii - Tenho sido muito reticente quanto à
idéia de refundação do partido apresentada
por Tarso Genro. Não é uma refundação,
com a mistura de velhos e novos valores. O PT já é
isto que ele mostra ser hoje, um partido que vigerá daqui
para frente com um novo perfil. Portanto, ele já não
é o partido de esquerda que foi. Temos que lutar para que
este partido que está começando a deslizar lentamente
para um perfil mais ao centro-esquerda, consiga, depois das eleições,
recuperar o mínimo do radicalismo reformista de outrora.
Se não houver uma esquerda mais ou menos, não temos
nada.
JC - Qual foi o impacto da crise política
nacional no eleitor petista?
Koutzii - É perceptível que uma
série de setores, tanto ex-simpatizantes petistas, como
eleitores de Lula, que se sentiram golpeados e fraudados pelos
acontecimentos, apresenta uma mudança de disposição
e tende a votar novamente no presidente. As pessoas percebem que,
por trás da névoa das decepções, há
um campo mais à direita que continua, aliás são
os de sempre, e um campo mais à esquerda, ou progressista,
que continua sendo liderado pela figura do presidente. O governo
Lula parece ser bem menos do que queríamos mas, nitidamente
é melhor do que o de Fernando Henrique Cardoso. Este é
um elemento que está chegando mais tarde, muito próximo
das eleições porque o eleitor se questiona da seguinte
forma: voto em Alckmin para voltar a tal e a tal coisa ou em Lula,
que não me satisfez aqui e ali, mas que tem uma lista de
políticas de investimentos nos setores mais despossuídos
e uma marca que começa a ficar visível agora?
JC - O presidente Lula tem sido acusado de utilizar
a máquina pública a seu favor, como o senhor se
posiciona quanto ao instituto da reeleição?
Koutzii - Não tenho dúvida de que,
em geral, o instituto da reeleição é ruim.
Mas, considero hipocrisia o choro da direita conservadora sobre
o tema. Todo mundo sabe que a modificação da Constituição
para que FHC se reelegesse foi comprada no Congresso. Mas, para
não reconhecer o erro, ataca-se o adversário. Então,
em tese, o melhor é que não houvesse reeleição.
Mas, diante das circunstâncias históricas nos últimos
20 anos, temos o direito de usufruir de uma legislação
da qual se valeu o governo antecessor para a reeleição.
As inaugurações também fazem parte dessas
hipocrisias. Todos os partidos se valeram disso e a grande maioria
deles de fato inaugurou placas, pedras e vazios. Hoje, estamos
em meio a uma guerra dentro do universo político. Nossos
adversários se comportam como inimigos e querem nos aniquilar.
Perderam complemente o pudor. O cheiro do sangue possívelmente
os cegou, e há um patrulhamento brutal sobre todos os petistas.
Estamos sendo observados permanentemente.
JC - O presidente da Assembléia Legislativa,
deputado Fernando Záchia (PMDB), propôs a discussão
de alternativas para a crise financeira do Estado através
do fórum Pacto pelo Rio Grande. Até que ponto pode
haver efeito prático?
Koutzii - A temática do Pacto surge como
uma grande operação baseada no refrão: todos
já governaram, todos fracassaram, somos todos iguais a
você, não sabemos aonde vamos e unamo-nos irmãos.
O Pacto, embora tenha a simpatia da sociedade e compreenda que
são grandes as dificuldades, acena para algo como, sejamos
grandes amigos e colaboremos para um entendimento mínimo
comum. É o 'aqui jaz' de várias coisas que foram
propostas. Mas, o identifico fundamentalmente como uma confissão
de impotência e um colapso de posições programáticas.
Sejam as do governo de Antonio Britto, que embora eu tenha sido
um de seus adversários mais convictos, reconheço
que tinha um projeto, com começo, meio e fim. No entanto,
desconheço qual é o projeto de Germano Rigotto.
Britto, pelo menos tinha uma marca: vou criar uma nova base industrial
e vendo o aparelho do Estado para financiar isso. Hoje, nem isso
se tem e há apenas um híbrido insípido. Nós
não nos reconhecemos no 'aqui jaz'. O governo da Frente
Popular, embora com muitos problemas, desenvolveu linhas de atuação
que não perderam a atualidade. E, como aprendemos muito,
poderíamos fazer um governo com muito mais sabedoria, equilíbrio
e menos atrito. Então o Pacto, na verdade, expressa um
impasse do campo conservador, que já teve um auge neoliberal
e que hoje é uma espécie de melancolia neoliberal,
que colhe os frutos do que plantou e não sabe o que dizer,
nem o que propor. Com o Pacto, cria-se uma espécie de cortina
de fumaça na hora de julgar o governo que está terminando
e que, na verdade, nem sei quando começou.
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