Um
grande texto sobre um grande desastre
Boa
leitura
Um abraço
Flavio Koutzii
CRÔNICA
DE UMA DERROTA ANUNCIADA
A
queda da seleção espetacular mercantil
O
Brasil não jogou direito porque jamais teve um time, uma
equipe, neste triste campeonato espetacular e mercantil, que assolou
o imaginário do país. Parreira disse que era mais
um gerente de talentos do que um treinador. Antecipou o que estava
por vir.
Katarina
Peixoto
O
Brasil saiu da Copa do jeito que entrou. Jogando na contingência,
escorado no espetáculo mercantil que transfigurou –
mas não transformou – o futebol em slogans imaginários
cravados num aglomerado de estrelas milionárias. O que
interditou a suposta vingança, contra a França?
Isso, um time inexistente, porque time de futebol é coisa
que ainda não está, exatamente, à venda.
Vendem-se e compram-se craques, técnicos, equipe técnica,
narradores esportivos, comentaristas (por encomenda), repórteres
festivos.
Time
de futebol, sobretudo numa copa do mundo, não se reduz
ao espetáculo mercantil. Pelo menos não completamente,
ou não exatamente. Dinheiro, confiança, aposta,
tudo isso importa, mas não é o que determina a formação
de um time, num campeonato em que gol é o milagre do detalhe
buscado ou faltado. É no detalhe e na medida do que soçobra
como detalhe, diante da cortina de fumaça da pressão
espetacular e mercantil, que se faz aparecer a realidade do que
é ou deixa de ser – ou nunca foi – um time.
Time
de futebol é um conjunto, desses que não se faz
com a mera soma das partes, ou de estrelas. Tanto é assim
que quadrado mágico ficou só na mágica e
não ganhou nunca a prerrogativa de realidade. Por que?
Porque futebol só é mágica depois de ser
real. Futebol é na realidade um esporte coletivo, algo
que acontece no confronto entre dois times. O Brasil não
jogou direito porque jamais houve um time, neste triste campeonato
espetacular e mercantil, que assolou o imaginário e as
expectativas do país.
Dez
de cada dez comerciais evocam o futebol brasileiro, nas tevês,
rádios e jornais. A sexta estrela é celebrada do
comercial da cerveja ao da loja de eletrodomésticos. Alguns
jogadores brasileiros não vendem apenas tênis e bolas,
mas desodorantes, refrigerantes, contas bancárias, celulares,
sonhos de crianças pobres num universo onírico e
fascinante.
Nada
nesse poder imagético tem qualquer realidade e nisso talvez
resida alguma lição importante e algo a levarmos
para as nossas tripas doloridas com essa derrota justa.
O
ensinamento que fica não depende das elucubrações
a respeito do que não nos é dado a pensar pela joint-venture
espetacular que assola a cobertura dos jogos. Não depende,
tampouco, dos raros comentaristas críticos e devidamente
paranóicos, com os tristes desempenhos da seleção
que não houve. É um ensinamento que só pode
ser percebido e levado a sério se conseguirmos responder
a algumas perguntas.
Por
que não se formou um time em momento algum? Podem objetar
que o espetáculo mercantil é algo que assola o futebol
mundial, uma das grandes indústrias fetichistas do financismo,
e não apenas o brasileiro. Certo, mas a Alemanha tem um
time de futebol jogando em campo, assim como tinha a Argentina,
que perdeu por estupidez de um técnico irresponsável
e em pânico.
Uma
outra pergunta talvez mais delicada é esta: por que os
jogadores, salvo raras e valorosas exceções, não
disputaram qualquer bola dividida contra a França? Por
que deixaram Zidane dançar em campo, apresentando o seu
primoroso, categórico, límpido, futebol? Uma maneira
covarde de responder a isso é dizendo que a França
não deixou o Brasil jogar. É verdade. A covardia
fica por conta de um detalhe: por que diabos o Brasil não
quis jogar?
É
importante e necessário dizer que Lúcio, Zé
Roberto, Juan e o goleiro Dida foram os únicos, desde o
início do campeonato, que estavam inteiros ali, em campo.
Lúcio foi o único que manteve em contas claras,
nítidas, desde o início e ininterruptamente, o compromisso
com o futebol, com a seleção e com o desejo de um
time. Ele é o grande jogador do Brasil, o mais honrado
e o mais bravo, o mais vigoroso e compromissado.
É
um paradoxo aparente o de que quatro jogadores tenham querido
tanto fazer um time e que todo o resto não possa ser responsabilizado
totalmente pela derrota justa para uma França inteira em
campo. Como se pode destacar alguns, nomear os grandes, sustentando
que não é de estrelas que se faz um time para vencer?
Não é porque para elogiar a singularidade vale e
para criticar, não. É porque aquilo que os bons
jogadores brasileiros nessa copa assumiram e incorporaram para
si não é algo que depende exclusivamente deles,
mas da confiança e aposta integral num time.
Apesar
da abundância de revelações mágicas
sobre os bastidores a nós inalcançáveis,
a respeito das mesquinharias mercantis imaginárias; apesar
das possíveis e prováveis operações
escusas a serem reveladas pelos heróis da resistência
à joint-venture do grande monopólio e da CBF; apesar
da desconcertante perplexidade de nossos jogadores, que não
parecem entender a razão da derrota a partir da própria
seleção – que não há, daí
a incompreensão esperada; apesar de tudo isso, o que resta
de ensinamento numa justa derrota é a evidência que
ela deixa a todos os que se dispuserem a ver.
Essa
evidência é a de que o desejo e a formação
de um time não são mensuráveis financeiramente.
Tudo o que se mede segundo o espetáculo mercantil é
refém da sua medida, é dele dependente e completamente
submisso.
Time
de futebol não é algo que depende apenas de um contrato.
Que fique clara a importância da afirmação
do técnico Parreira, responsável direto –
ainda que não exclusivamente – pela justa derrota,
logo no início da copa.
A
afirmação espetacular era a de que ele não
passava de um administrador de talentos. Gerente de um aglomerado,
portanto não técnico de um time. Uma afirmação
que antecipou o que estava por vir.
Não
é patriotismo o que está em jogo, por outro aparente
lado, porque não precisa ser. Não são o caráter
dos jogadores e da equipe técnica, tampouco os interesses
dos conglomerados financeiros, que patrocinam esse espetáculo
mercantil, o que decepciona nessa justa derrota.
O
declínio e a queda da seleção brasileira
é o declínio e a queda de um universo paralelo absolutamente
alheio à realidade e mesmo avesso às suas exigências.
É o declínio da formação de um time,
de uma coletividade orgânica, inteira, conjunta; é
a queda a verdadeira impossibilidade de completude e finalização
de uma jogada, que aparece em bolas ao vento e caras e bocas para
as câmeras, que soçobram em faltas cavadas com todo
o vazio da falta de compromisso, exatamente aquilo que Lúcio,
Zé Roberto, Juan e Dida demonstraram, em seus desejos,
disputas e compromissos, desmentindo o gerente do universo espetacular
e mercantil, que não pode e não deve ser unicamente
responsabilizado pelo fracasso necessário de um time fictício.
O
ensinamento desse declínio e dessa queda seja o aprendizado
de que no futebol, como na vida, a realidade exige respeito, e
sem bola dividida não é só a graça
que falta. Sem o engajamento e o compromisso que o respeito pela
realidade, pelos outros, pela formação de um time,
traz consigo, a queda é inevitável. E necessária.
Não
foi atitude, esse fetiche bobalhão, o que faltou. Foi respeito,
compromisso, engajamento. Faltou o senso elementar num time de
que um time não é a soma de seus componentes individuais,
portanto não é algo que um gerente possa resolver;
faltou o respeito ao adversário, esse mesmo, que não
admitiu a soberba e disputou tudo, inclusive aquilo que não
se vende. Faltou, precisamente, o inegociável. Faltou o
que jamais cairá, porque nunca será mensurável
pelo espetáculo mercantil.
Um
bom começo esteja na justeza dessa derrota. E os bons e
devidamente paranóicos combates, sejam feitos pelos altivos
críticos da joint-venture do obscurantismo no nosso futebol.
Salve
Lúcio, Zé Roberto, Juan e Dida. Salve Lúcio,
o quase único jogador de um time que não saiu de
seu compromisso inegociado e que, exatamente por isso, garantiu-lhe
o respeito e a honra, nesse triste e ao mesmo tempo necessário
declínio e queda, da seleção que não
existiu.
é
doutoranda em Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande
do Sul. E-mail: katarinapeixoto@hotmail.com
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