"Nossas
medidas não são eleitoreiras"
Reproduzimos
a entrevista da ministra-chefe da casa civil, Dilma Rousseff,
publicada na Zero Hora de hoje, 31 de julho de 2006, página
24.
Conjuntura
Entrevista:
Dilma Rousseff, ministra-chefe da casa civil
MARTIANE
WELTER E ROSANE DE OLIVEIRA
Um
dia depois da primeira visita do presidente Lula a Porto Alegre,
na condição de candidato à reeleição,
a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, identificou ontem
os três setores que considera as maiores promessas da economia
gaúcha nos próximos anos: naval, microeletrônica,
e biocombustíveis.
Dilma voltou a protestar contra a interpretação
de que seriam eleitoreiras as medidas anunciadas por ela para
os setores moveleiro e de máquinas agrícolas, que
coincidiram com a visita do presidente Lula ao Estado na última
semana:
- A idéia (da oposição) era de que nós
ficaríamos imobilizados por causa da reeleição,
mas não vamos nos deixar imobilizar e não deixaremos
de governar porque o presidente é candidato.
Gripada em conseqüência do frio que enfrentou no Rio
Grande do Sul nos últimos três dias, a ministra conversou
com Zero Hora ontem, durante uma hora e 30 minutos, no aeroporto
Salgado Filho, enquanto aguardava um vôo de carreira para
São Paulo, de onde seguiria para Brasília.
A seguir a síntese da entrevista:
Zero Hora - O que se pode esperar de investimentos
para o Rio Grande do Sul em um eventual próximo governo?
Dilma Rousseff - Eu sei que o Rio Grande do Sul
está em crise, mas sei também que o Estado tem futuro.
Tem uma parte que morreu ou vai morrer, tem uma parte que vai
ficar um pouco menor, mas tem três que vão crescer
muito: os setores naval, de biocombustível e de microeletrônica.
ZH - Mas como fica a tradicional economia gaúcha?
Dilma - Nós temos de dar força
para os setores tradicionais do Rio Grande do Sul, e daremos,
mas é fundamental dar força para estes três
pólos nos próximos anos.
ZH - De que maneira estes segmentos serão
incentivados?
Dilma - A indústria naval estava morta
no Brasil. Criamos o Programa de Mobilização da
Indústria de Petróleo e Gás, que obriga compras
internas de navios, plataformas e equipamentos. No pólo
de Rio Grande, estão produzindo a P-53, que tem valor de
US$ 897 milhões e será feita inteiramente aqui e
com componentes nacionais. Significa desenvolver um pólo
de construção de plataformas, pois não vai
ficar só na P-53: a Petrobras investirá, entre 2007
e 2010, US$ 87 bilhões (na área de produção
e exploração de petróleo). Aqui no Estado
temos também o dique seco, para manutenção
e reforma de plataformas ou navios. E a Petrobras está
fazendo prospecção na bacia de Pelotas e há
indicações de que pode existir retorno positivo.
ZH - A produção de biocombustíveis
pode ser considerada uma alternativa para a crise na agricultura?
Dilma - O pólo de biocombustíveis
do Estado terá biodiesel e H-Bio. No último leilão
aqui entraram 160 milhões de litros, sendo 70 milhões
da BSBios, de Passo Fundo, 80 milhões da Brasil Biodiesel,
de Rosário do Sul, e 10 milhões da Oleoplan, de
Veranópolis. Ainda tem a Granol, de Cachoeira do Sul, que
nos próximos leilões pode entrar. Quem produzir
biodiesel com matéria-prima de agricultura familiar terá
68% de isenção tributária.
ZH - Já existe definição
sobre o H-Bio no Estado?
Dilma - Em setembro, lançaremos na Refinaria
Alberto Pasqualini o H-Bio (processo de adição de
hidrogênio e biodiesel para purificação de
diesel). Essas atividades livram os produtores da dependência
do câmbio e dos importadores.
ZH - A implantação da TV Digital
no Brasil terá participação de empresas gaúchas?
Dilma - A TV Digital abrirá uma série
de oportunidades para as empresas gaúchas. Acredito que
o Estado tem uma enorme vocação para isto, até
porque nós investimos aqui R$ 149 milhões no Ceitec
(Centro de Excelência em Tecnologia Eletrônica Avançada).
ZH - Já houve contatos com empresas gaúchas?
Dilma - Qualquer empresa gaúcha que se
interessar poderá integrar o fórum de discussão
da TV Digital. A Altus é um exemplo de empresa que se interessou,
então convidamos.
ZH - O fato de a senhora ter anunciado benefícios
aos setores moveleiro e de máquinas agrícolas na
véspera da visita do presidente foi interpretada como uma
estratégia eleitoreira. Como responde a essas críticas?
Dilma - Estamos em uma situação
complicada, qualquer coisa que se fizer será chamada de
eleitoreira. Mas não é todo mundo que diz. Em uma
semana, anunciamos pacote cambial, automotivo, para moveleiros
e máquinas agrícolas. Por que só os dois
últimos são chamados de eleitoreiros e os outros
dois não? Por que não falaram isto em São
Paulo na quinta-feira, quando o presidente esteve lá? Só
aqui falaram. As medidas não são eleitoreiras. Não
vamos deixar de governar porque o presidente é candidato.
ZH - As linhas de financiamento para segmentos
específicos podem ser estendidas para outras indústrias?
Dilma - Nós temos uma pauta com a Fiergs
(Federação das Indústrias do Estado do Rio
Grande do Sul) com itens que vamos equacionando aos poucos. Aliás,
o presidente da entidade Paulo Tigre tem tido conosco uma das
melhores relações possíveis, tem sido muito
presente. Eu falei para ele que recebia diversas entidades empresariais
do Brasil e que não aparecia ninguém do Rio Grande
do Sul. Como o Tigre é uma pessoa muito objetiva, estamos
criando uma ótima relação. Atendendo à
solicitação da Fiergs nós conseguimos montar
o FAT Giro Setorial, inicialmente só para calçadistas.
ZH - Foi sugerido sua extensão para outros
setores?
Dilma - Quando vim aqui fazer o anúncio
para os calçadistas, um representante do setor de máquinas
pediu que fosse estendida a linha para eles, e o pessoal dos moveleiros
solicitou aqui e em Santa Catarina. Discutimos uma política
específica para estes setores, porque são intensivos
em mão-de-obra e estavam com problemas.
ZH - Quais seriam as prioridades econômicas
em caso de um segundo mandato?
Dilma - A gente tem de governar para todos. A
síntese do nosso governo seria mostrar que é possível
crescer com taxas acima de 4% sistematicamente e, ao mesmo tempo,
ter uma política clara de distribuição de
renda. Queremos estabilidade econômica, manter o ritmo de
criação de vagas e a inflação baixa.
De todas as áreas, as que eu quero me deter são
infra-estrutura, logística e energia.
ZH - A senhora sempre defendeu solução
de mercado para Varig. O desfecho agradou?
Dilma - Se fosse antes poderia ter sido melhor,
mas antes o pessoal da Fundação Ruben Berta não
quis solução nenhuma. Esperamos que dê certo,
a gente acredita que há margem para crescer, o setor não
está em crise, pelo contrário, está crescendo
a taxas de 15%. De janeiro a junho foi ainda maior, cerca de 30%.
Por isso, acho que os trabalhadores da Varig têm chance
dentro e fora da Varig.
ZH -Mas ministra foram 5,5 mil demitidos que,
agora, estão solicitando mais parcelas do seguro-desemprego.
Dilma - Obviamente o que puder ser feito para
melhorar a situação deles, vamos fazer, mas o que
eu estou dizendo para vocês é que jamais nos procuraram
falando nesta questão, pelo menos a mim nunca procuraram.
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