| Não
à direita
Reproduzimos o texto de Emir Sader, publicado em seu blog, no
site www.agenciacartamaior.com.br,
objeto de pronunciamento do Deputado Flavio Koutzii, na sessão
de hoje, 26/09/2006, na tribuna da Assembléia Legislativa.
Qualquer que seja o juízo que se tenha do governo Lula
– mais ou menos severo nas críticas -, o quadro político
está fortemente polarizado entre direita e esquerda. A
esquerda pode errar muitas vezes, a direita erra menos. Esta escolheu
um mau candidato, mas aponta firme contra quem considera seu inimigo
fundamental, hoje representado pelo governo Lula.
É
uma constatação de fato que constitui o eixo central
dos enfrentamentos do campo político no processo eleitoral
atual.
Não entremos a considerar as razões dessa oposição
e dos ataques brutais contra o governo. Sabemos que não
é zelo pela ética, porque a direita tolerou, participou
e ganhou com todas as maracutaias da ditadura, do governo Collor,
do governo FHC e de tantos governos locais. Constatamos sua virulência
e seu objetivo de desalojar o governo Lula, apesar da moderação
de tantos aspectos desse governo. Trata-se de uma ofensiva contra
a esquerda, como fica claro nos temas programáticos centrais
da direita: menos Estado, retomada das privatizações
(Petrobrás, Banco do Brasil, Eletrobrás, Caixa Econômica
Federal, BNDES), menos tributação, corte maior dos
gastos públicos, maior abertura da economia, fim das regulações
estatais, privilegio das relações externas com o
Norte e fim da política Sul/Sul, menos soberania e integração,
mais livre comércio e Alca, políticas de segurança
pública ainda mais repressivas, tratamento duro com os
movimentos sociais.
Caso venha a ganhar o candidato tucano-pefelista, ninguém,
no campo da esquerda, dos movimentos sociais, do campo popular
e do pensamento crítico, será poupado da sanha direitista
que se apossou da elite brasileira, ninguém deixará
de sofrer direta e indiretamente os efeitos dessas políticas,
inclusive no seu aspecto criminalizador dos movimentos sociais
e diretamente repressivo.
Não bastasse os apelos a Carlos Lacerda, as comparações
com Watergate, o editorial da FSP ("Degradação")
de domingo passado é parecido com o do Correio da Manhã
("Basta") nas vésperas do golpe de 1964 (foi
taxado, corretamente, de lacerdista por Luis Nassif). Querem criar
um clima de agosto de 1954 – com CPIs funcionando de "República
do Galeão" -, de março de 1964 – deslegitimando
governos e preparando o impeachment, caso a vontade popular uma
vez mais se volte contra eles.
Era a direita unificada, como há muito não se via
– praticamente todo o grande empresariado, a totalidade
da grande mídia privada monopolista , todos os partidos
da direita e outros que um dia não eram de direita, aderidos
ao bloco tucano-pefelista, unidos na mesma campanha contra a candidatura
de Lula. Como não podem ganhar no primeiro turno, seu objetivo
hoje é chegar ao segundo turno, contando com os votos de
todos que não votem por Lula. E criar aí um clima
de virada, com todo o contexto de terror, apoiado na unanimidade
monopolista da grande mídia privada, valendo-se de todos
os métodos de manipulação de que tem se mostrado
capaz, seja na maquiagem de pesquisas, seja na editorialização
absoluta dos noticiários e no uso brutal do poder que sua
mídia monopolista pode ter a favor do seu candidato –
Alckmin, do bloco tucano-pefelista.
A esquerda tem que mostrar agora que sabe distinguir os campos
de enfrentamento, mais além das diferenças que têm.
A esquerda que não distingue o campo e os movimentos da
direita, não é esquerda, se perde nos ataques dispersos
a outros candidatos do próprio campo da esquerda e acaba
perdendo seu próprio caráter de esquerda. A esquerda
tem que demonstrar, diante dessa feroz ofensiva da direita, que
sabe colocar em prática uma política de frente única,
que não confunde inimigos estratégicos com aliados
táticos, que sabe distinguir as linhas de divisão
das contradições irreconciliáveis entre direita
e esquerda.
Não abrir mais flancos ao inimigo – ademais dos graves
erros cometidos pelo PT – e aparecer firmemente unida numa
frente anti-direitista, que fortaleça a esquerda, que aponte
para seus inimigos fundamentais – o neoliberalismo, a hegemonia
imperial estadunidense, o monopólio midiático. Contra
o poder do dinheiro, das armas e da palavra – pilares do
poder no mundo atual e inimigos fundamentais da esquerda.
Para poder, no dia seguinte da derrota imposta à direita,
trabalhar para recompor a esquerda, formulando projetos democráticos,
populares e soberanos para o Brasil, mobilizando o pensamento
crítico do país e os movimentos sociais, políticos
e culturais – que constituem o eixo e a força maior
da esquerda. Para pressionar o novo governo, para que caminhe
na direção efetiva de superação dos
três obstáculos maiores com que se enfrenta a esquerda,
no Brasil, na América Latina e no mundo: os monopólios
do dinheiro, das armas e da palavra. Que trabalhe de forma concentrada
e unificada pela substituição do modelo econômico
por um outro, centrado em metas sociais e não econômico-financeiras;
que retome um projeto de desenvolvimento acelerado centrado na
expansão do consumo popular; que realize plenamente a reforma
agrária, promova centralmente a economia familiar e a política
de segurança alimentar, em oposição aos modelos
centrados na exportação e nos trangênicos;
que consolide e expanda os processos de integração
regional e no Sul do mundo; que trabalhe decididamente pela democratização
dos meios de comunicação, que inclua da legalização
e o incentivo das rádios comunitárias, ao fortalecimento
das mídias públicas e das alternativas, que retome
fortemente a implementação dos softwares alternativos
– entre tantas outras demandas da esquerda e dos movimentos
sociais.
Mas, antes, saber unir-nos e mobilizar-nos para barrar a ofensiva
da direita radicalizada, que é o elemento mais característico
da fase final da campanha presidencial, derrotá-los já
no primeiro turno, demonstrando que a esquerda sabe reconhecer
seus inimigos, sabe reunir forças para derrotá-los,
porque nenhum setor de esquerda, do campo popular, dos movimentos
sociais e do pensamento crítico ficarão imunes a
uma eventual vitória do bloco tucano-pefelista –
inimigo fundamental da esquerda.
Trata-se assim, nesta reta final da campanha, de ganhar os votos
suficientes para consolidar a vitória no primeiro turno,
para frear o ímpeto terrorista da direita e abrir os espaços
para a recomposição da esquerda, que permitam formular
um projeto de nação democrática política,
social, econômica e culturalmente, fazer com que a esquerda
retome, de forma unificada, a iniciativa e coloque com força
seu objetivo fundamental – um Brasil posneoliberal.
Não à direita, não a seu projeto de terror
e manipulação midiática, de tentar impor
um segundo turno de vale-tudo entre direita e esquerda. Derrotar
a direita com a força do povo e da unidade da esquerda.
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