| "Fátima
e William: falou tá falado"
Pronunciamento do Deputado Flavio Koutzii, na Tribuna da Assembléia,
em 03 de outubro de 2006.
Gostaria
de fazer algumas observações sem a pretensão
do rigor de análise, o que, talvez, só mais estudo
sistemático poderia permitir.
Dentre tantos fenômenos do último período
político, há um que desejo destacar.
Já havia referido aqui, na terça-feira passada,
o chamado dossiê Cuiabá, assunto grave que deve ser
totalmente investigado.
Em primeiro lugar, tinham sido deixados de lado os documentos
do dossiê, e os grandes veículos da imprensa nacional
haviam decidido transformá-lo numa máquina de moer
carne e de destruir o que era, até aquele momento, a quase
folgada vantagem do presidente Lula para alcançar a vitória
no primeiro turno. Junto a isso, como sempre, houve um ataque
concentrado à própria existência do Partido
dos Trabalhadores.
A esse episódio grave que desgastou, sem dúvida
nenhuma, tanto o partido quanto a candidatura – seria cego
ao negá-lo –, sucedeu-se um segundo momento, que
foi a decisão do presidente de não ir ao debate.
No meu entendimento e no de muitíssimos companheiros, fez-se
uma avaliação errada. Obviamente, o presidente deveria
ter comparecido, mas o mal está feito.
Gostaria de chamar a atenção, nesta minha intervenção,
para o papel fantástico, que nunca cansamos de tentar compreender
e analisar, e para o poder da mídia, tão óbvio,
tão cotidiano, tão presente no dia-a-dia, tão
decisivo que, às vezes, faz parecer que o exercício
da política – de qualquer política, de qualquer
partido – é absolutamente secundário em relação
à potência política dos grandes canhões
de comunicação.
A partir do não-comparecimento de Lula ao debate, assistimos
a um processo curioso – só quero fazer algumas sugestões,
porque não sou especialista na matéria.
Neste País, a Globo, sobretudo a televisão, tem
o papel que tem. Sabemos de sua audiência fantástica
e conhecemos os heróis que construiu. Refiro-me ao Pedro
Bial, ao William Bonner e à Fátima Bernardes, espécies
de ícones nacionais. São figuras acima do bem e
do mal, sedutoras, simpáticas, sempre presentes. São
os que nos dizem o que é notícia e o que não
é – e, de certa maneira, nos dizem o que é
verdade e o que não é verdade; são os que,
com elegância e sofisticação, insinuam que
há suspeita ou que não há suspeitos.
Quem assistiu aos programas atentamente – e vi televisão
por ofício, interessado nesse processo – entendeu
que, terminado o período de exposição gratuita,
só faziam proposta política a Globo e outros sócios
menores.
É interessante a forma como a ausência do presidente
foi abordada. E quanto a essa ausência não fui ambíguo;
para mim, foi um erro de avaliação grave do presidente.
Mas o fato passou a ser absolutamente central, associado à
fotografia do dinheiro, durante três dias – e foram
três dias seguidos, completos, intensos, absolutos, sem
contraponto com as figuras mais encantadoras deste País.
Isso não é detalhe, não! Isso não
é detalhe, porque a Fátima Bernardes, se um dia
olhasse para mim, me deixaria encantado! Ela e o William Bonner
são íntimos nossos, são quase vizinhos.
Isso é coisa da magia do poder e do aspecto sedutor que
os meios de comunicação moderno têm. Se ele
me diz que o presidente em exercício é meio suspeito,
está fazendo um extraordinário exercício
de convocação a votar de outro jeito. E, se a Fátima
olha para ele e assente com a cabeça, não há
mais dúvida, pois os dois juntos formam um casal maravilhoso.
E, se o Pedro Bial, que viajou por todo o Brasil e usa uma linguagem
que o aproxima de muitas camadas e setores de espectadores, de
alguma forma sugere o mesmo e, depois da programação
e do debate, edita-se não somente a cadeira vazia, mas
todas as insinuações críticas dos candidatos
adversários, temos claramente uma espécie de lavagem
cerebral que parece que não é, um tipo de indução
de entendimento como se fora essa a ordem natural das coisas.
Faço essa observação, como farei outras,
para chamar a atenção para o fato de que, na verdade,
na política decide quem tem o grande poder da multimídia
e do dinheiro.
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