04 de outubro de 2006   nº 35  

"Fátima e William: falou tá falado"


Pronunciamento do Deputado Flavio Koutzii, na Tribuna da Assembléia, em 03 de outubro de 2006.

Gostaria de fazer algumas observações sem a pretensão do rigor de análise, o que, talvez, só mais estudo sistemático poderia permitir.


Dentre tantos fenômenos do último período político, há um que desejo destacar.


Já havia referido aqui, na terça-feira passada, o chamado dossiê Cuiabá, assunto grave que deve ser totalmente investigado.


Em primeiro lugar, tinham sido deixados de lado os documentos do dossiê, e os grandes veículos da imprensa nacional haviam decidido transformá-lo numa máquina de moer carne e de destruir o que era, até aquele momento, a quase folgada vantagem do presidente Lula para alcançar a vitória no primeiro turno. Junto a isso, como sempre, houve um ataque concentrado à própria existência do Partido dos Trabalhadores.


A esse episódio grave que desgastou, sem dúvida nenhuma, tanto o partido quanto a candidatura – seria cego ao negá-lo –, sucedeu-se um segundo momento, que foi a decisão do presidente de não ir ao debate. No meu entendimento e no de muitíssimos companheiros, fez-se uma avaliação errada. Obviamente, o presidente deveria ter comparecido, mas o mal está feito.


Gostaria de chamar a atenção, nesta minha intervenção, para o papel fantástico, que nunca cansamos de tentar compreender e analisar, e para o poder da mídia, tão óbvio, tão cotidiano, tão presente no dia-a-dia, tão decisivo que, às vezes, faz parecer que o exercício da política – de qualquer política, de qualquer partido – é absolutamente secundário em relação à potência política dos grandes canhões de comunicação.


A partir do não-comparecimento de Lula ao debate, assistimos a um processo curioso – só quero fazer algumas sugestões, porque não sou especialista na matéria.


Neste País, a Globo, sobretudo a televisão, tem o papel que tem. Sabemos de sua audiência fantástica e conhecemos os heróis que construiu. Refiro-me ao Pedro Bial, ao William Bonner e à Fátima Bernardes, espécies de ícones nacionais. São figuras acima do bem e do mal, sedutoras, simpáticas, sempre presentes. São os que nos dizem o que é notícia e o que não é – e, de certa maneira, nos dizem o que é verdade e o que não é verdade; são os que, com elegância e sofisticação, insinuam que há suspeita ou que não há suspeitos.


Quem assistiu aos programas atentamente – e vi televisão por ofício, interessado nesse processo – entendeu que, terminado o período de exposição gratuita, só faziam proposta política a Globo e outros sócios menores.


É interessante a forma como a ausência do presidente foi abordada. E quanto a essa ausência não fui ambíguo; para mim, foi um erro de avaliação grave do presidente. Mas o fato passou a ser absolutamente central, associado à fotografia do dinheiro, durante três dias – e foram três dias seguidos, completos, intensos, absolutos, sem contraponto com as figuras mais encantadoras deste País.


Isso não é detalhe, não! Isso não é detalhe, porque a Fátima Bernardes, se um dia olhasse para mim, me deixaria encantado! Ela e o William Bonner são íntimos nossos, são quase vizinhos.


Isso é coisa da magia do poder e do aspecto sedutor que os meios de comunicação moderno têm. Se ele me diz que o presidente em exercício é meio suspeito, está fazendo um extraordinário exercício de convocação a votar de outro jeito. E, se a Fátima olha para ele e assente com a cabeça, não há mais dúvida, pois os dois juntos formam um casal maravilhoso.


E, se o Pedro Bial, que viajou por todo o Brasil e usa uma linguagem que o aproxima de muitas camadas e setores de espectadores, de alguma forma sugere o mesmo e, depois da programação e do debate, edita-se não somente a cadeira vazia, mas todas as insinuações críticas dos candidatos adversários, temos claramente uma espécie de lavagem cerebral que parece que não é, um tipo de indução de entendimento como se fora essa a ordem natural das coisas.


Faço essa observação, como farei outras, para chamar a atenção para o fato de que, na verdade, na política decide quem tem o grande poder da multimídia e do dinheiro.


Fone: (51) 3210-2670 - www.flaviokoutzii.com.br
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