|
A escolha nada inocente das palavras
Reproduzimos hoje texto de Marco Aurélio Weissheimer publicado
no site da Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br),
em 06/10/2006.
Flavio
Koutzii
O
que significa defender o corte de gastos públicos e a diminuição
de gastos com pessoal? Qual a tradução dessa expressão
para a vida real das pessoas, em um país como o Brasil?
Por que o dinheiro público destinado aos pobres é
chamado de "gasto", enquanto que o vai parar nas mãos
dos ricos é chamado de "investimento"?
PORTO ALEGRE - A disputa política em períodos eleitorais
e não eleitorais é, entre outras coisas, uma disputa
pela palavra, uma disputa pelo significado das palavras. A hegemonia
neoliberal das últimas décadas expressou-se de modo
avassalador no terreno discursivo. Algumas palavras e expressões
são usadas diariamente, vestidas com um manto de verdades
supostamente inquestionáveis, como se descrevessem exatamente
o que pretendem descrever. Descrevem mesmo? O economês é
um terreno fértil desta disputa. A escolha das palavras
nesta área, assim como ocorre também na política
e na cultura, está longe de ser inocente. São sempre
escolhas fardadas, fardadas para a guerra ideológica.
O que significam, por exemplo, expressões como "choque
de gestão", "corte de gastos correntes",
"melhorar o gasto público", "o governo gasta
muito e gasta mal", "redução das despesas
do governo", "redução das despesas com
pessoal"? Nos últimos anos, tais expressões
tomaram o lugar de outras que tiveram livre e entusiasmado trânsito
na década de 90. Expressões como "estado mínimo",
"privatização", "livre jogo dos mercados",
"globalização". As derrotas políticas
e econômicas que a vida real infringiu a tais expressões
e seus respectivos significados obrigaram seus formuladores a
realizar uma maquiagem conceitual. Assim, hoje, esses agentes
políticos e econômicos não falam mais abertamente
de privatizações e da suposta eficácia do
estado mínimo, mas sim de choque de gestão, da necessidade
de reduzir os gastos do governo. O que mudou, afinal de contas?
A lógica da máscara
Há
fortes indícios para se pensar que o que mudou foram apenas
as palavras, a casca. As idéias permanecem as mesmas, só
que com uma roupagem diferente. Um dos principais indícios
dessa metamorfose é o esforço para ocultar o que
elas de fato significam. A lógica desse esforço
é a lógica da máscara, do disfarce. O atual
momento político do país fornece fartos exemplos.
Por que a preferência, por exemplo, pelo uso da palavra
"gasto" ao invés do uso de "investimento".
Alguém aí já viu um candidato propondo a
diminuição de investimentos públicos? Já
o "corte de gastos" é moeda corrente, sendo apontada
como índice de modernidade e do caminho a ser seguido.
Onde terminam, afinal, os gastos e começam os investimentos?
Qual a fronteira entre esses dois termos em um país com
as desigualdades sociais como as que o Brasil apresenta? Quando
vamos ao supermercado (aqueles que conseguem ir, é claro)
comprar café, arroz, feijão, alface e iogurte, isso
é gasto ou investimento? Comprar livros é gasto
ou investimento? E ir ao cinema?
Aqueles que falam em "cortar os gastos públicos correntes"
costumam, quando chegam a governos, cortar investimentos em educação,
saúde e assistência social. Façamos uma rápida
comparação entre os últimos governos do Brasil.
O principal símbolo do governo Fernando Henrique Cardoso
foi a privatização. Essa política, segundo
apregoavam suas lideranças, era fundamental para inserir
o país na modernidade. O resultado é bem conhecido
de todos e resultou na derrota dos tucanos e de seus aliados nas
eleições de 2002. Já no caso do governo Lula,
há um razoável consenso de que a principal marca
(ou uma das) é o Bolsa Família. O que vemos hoje
na disputa política e eleitoral? O candidato Geraldo Alckmin,
herdeiro do governo FHC, diz que vai "manter e ampliar o
Bolsa Família", mas faz isso por absoluta impossibilidade
política de se contrapor ao programa. O principal conceito
de sua campanha, na verdade, é o famoso "choque de
gestão", expressão que costuma andar de mãos
dadas com "corte de gastos públicos correntes".
Quais gastos públicos serão cortados para fornecer
a eletricidade do "choque de gestão"?
A teoria do bolo
O
candidato tucano não fala sobre onde vai cortar para aplicar
seu "choque de gestão", mas um dos formuladores
de seu programa de governo rompe o silêncio. Em entrevista
à Folha de São Paulo (14/08/2006), o economista
Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-ministro das Comunicações
o governo FHC, afirmou: "Hoje, nós estamos tirando
renda da parte eficiente da economia e dando para o governo para
distribuir isso para o sujeito comer. Isso é muito bom
do ponto de vista da distribuição de renda, mas
do ponto de vista de uma economia de mercado é o pior caminho
que você tem". Trata-se de uma variante da teoria do
bolo, popularizada por Delfim Netto. Ou seja, é preciso
investir (e, neste caso, jamais se usa a palavra "gasto";
dinheiro para pobre é gasto, dinheiro para rico é
investimento) na "parte eficiente da economia", fazer
o bolo crescer e todos ganharão com isso. Programas como
o Bolsa Família, nesta concepção, são
muito bons "para o sujeito comer" e "do ponto de
vista da distribuição de renda", mas para a
economia de mercado são péssimos. Para que serve
a "economia de mercado", afinal? Para o economista tucano,
parece que não é para melhorar a distribuição
de renda no país. Há uma certa dose de sinceridade
aí que não aparece nos discursos eleitorais.
Nunca é demais lembrar alguns números sobre o quadro
da desigualdade social no Brasil. Os 10% mais ricos da população
são donos de 46% da renda nacional, enquanto que os 50%
mais pobres (cerca de 87 milhões de pessoas) ficam com
apenas 13,3% do total da renda nacional. Países com renda
per capita similar à brasileira têm 10% de pobres
em sua população, enquanto nós estamos na
casa dos 30%. Segundo dados oficiais, cerca de 55 milhões
de brasileiros vivem em situação de pobreza. Destes,
cerca de 22 milhões em condição de indigência.
Por outro lado, o Brasil possui a segunda maior frota de aviões
e helicópteros particulares do mundo, um número
que expressa seguramente, para Mendonça de Barros, a "parte
eficiente da economia". Essa "parte eficiente"
fez com que o Brasil tivesse uma das maiores taxas médias
de crescimento ao longo do século XX e, ao mesmo tempo,
criasse uma das sociedades mais desiguais do planeta. Trata-se,
sem dúvida, de um modelo chocante de gestão econômica.
O oculto e o visível
O
que a "parte eficiente da economia", essa que anda em
aviões e helicópteros particulares, tem a oferecer
para os 22 milhões de brasileiros que vivem em situação
de indigência (para não falar dos outros 30 milhões
que vivem na linha da pobreza)? Tem algo "para o sujeito
comer"? Um bom texto para refletir sobre essa pergunta é
o livro "Vidas despedaçadas" (Jorge Zahar), do
sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Segundo ele, hoje
há uma população de milhões de párias
sociais em todo o mundo, que não tem o menor significado
para a chamada "economia de mercado". "Essa população
fora-da-lei jamais será incorporada ao sistema produtivo,
nem manterá qualquer tipo de relação estável.
Também não há mais espaço para onde
fugir, nem para pensar no futuro. Essas pessoas não têm
futuro". Para os defensores das virtudes inquestionáveis
da "economia de mercado", destinar dinheiro público
para essa gente é um gasto inútil e não um
investimento.
Os critérios de uso das palavras "gasto" e "investimento"
já são bons indicadores para desmascarar qualquer
presunção de inocência. Outro bom indicador
é o uso da lógica da máscara, do disfarce,
para esconder o real significado daquilo que se está dizendo.
Não é à toa que os candidatos tucanos se
vejam obrigados hoje a dizer que vão manter e ampliar o
Bolsa Família, enquanto seus formuladores de programa de
governo criticam abertamente o programa. Não é à
toa que, nas eleições municipais de 2004, em Porto
Alegre, o candidato José Fogaça (ex-líder
do governo FHC no Senado) tenha sido obrigado a repetir a exaustão
que iria manter o Orçamento Participativo. Tampouco é
à toa que, ainda no RS, a candidata tucana ao governo estadual,
Yeda Crusius, seja obrigada a assumir um compromisso público
prometendo que não vai privatizar. Para driblar essas interdições,
adotam novas expressões como "choque de gestão"
ou "novo jeito de governar".
A escolha dessas palavras – e o ocultamento de outras –
não é nada inocente. Nunca é. Como diz Fredric
Jameson, há uma luta do discurso sendo travada aí.
Uma boa máxima para se orientar neste terreno discursivo
pantanoso pode ser a seguinte: "diga-me o que está
sendo obrigado a dizer e o que está sendo obrigado a esconder
e te direi quem tu és".
|