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O
dossiê do dossiê (III): A reviravolta
Reproduzimos hoje texto de Flávio Aguiar publicado no site
da Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br),
em 11/10/2006.
Flavio
Koutzii
Em
novo depoimento, Gedimar Passos atira no pé... de Edmilson
Bruno, o delegado das fotos. Segundo o ex-PF, Edmilson teria forçado
a acusação de que Freud Godoy participava da compra
do dossiê. Ao mesmo tempo, anuncia-se um depósito
suspeito na conta do assessor.
Flávio Aguiar
Transcrevo nova carta de meu amigo Saul Leblon, da Moóca:
"Caro Flávio
Em carta anterior, eu disse que "tinha coisa" na presença
de Gedimar Passos, ex-PF, na cena do crime (o hotel Ibis em S.
Paulo, onde os petistas aqualoucos foram surpeendidos com o dinheiro
para a compra do dossiê Vedoin/Serra/Barjas Negri).
Gedimar Passos tinha apresentado a versão de que o mandante
de sua presença lá seria Freud Godoy (errando-lhe
o nome), assessor do Palácio do Planalto. As manchetes
e as fotos nos jornais foram espetaculares.
Freud declarou-se inocente. Telefonou ao Presidente da República
e disse que por causa dele, Freud, Lula podia dormir tranqüilo.
Com o passar do tempo, informações vindas da PF
diziam que nada havia sido encontrado contra o assessor, embora
ele continuasse no rol das investigações, o que
é normal, até o seu fim. A contragosto, os jornais
conservadores noticiaram discretamente em páginas internas,
sem manchetes ou sequer chamadas na capa, a notícia. Mas
sempre que puderam, puseram a ênfase na segunda parte: Freud
continua sendo investigado.
Agora o caso sofreu um abalo sísmico, registrado pela TV
nos noticiários, mas novamente com discrição
insatisfeita pela imprensa escrita: Gedimar Passos, em novo depoimento,
diz que foi o delegado Edmilson Bruno, o homem da divulgação
ilícita das fotos do dinheiro apreendido, quem o induziu,
durante interrogatório, a apontar o nome de Freud. Na imprensa
escrita essa informação veio, no dia 11/10, sempre
contrabalançada pela de que a CPI da venda superfaturada
de ambulâncias (vulgarmente denominada dos sanguessugas)
vai investigar um depósito de R$ 396 mil na conta de Freud,
ao que parece feito por Naji Nahas). No Estadão esse contrabalanço
foi tal que a informação sobre o depósito
foi parar na capa do jornal, em chamada central. No interior,
a menção a que a PF não tem indícios
contra Freud mereceu 6 linhas no fim da matéria sobre o
depósito, ainda que ela venha encimada pela declaração
do deputado Fernando Gabeira de que investigá-lo "não
significa que Freud é culpado". Além disso,
só outras três linhas no comentário de Dora
Kramer, assim mesmo, como parte de uma "Babel" de versões
para confundir os eleitores.
Houve, deve-se registrar, jornalistas (Elio Gaspari e Gustavo
Ioschpe, na Folha), que pediram desculpas a Freud por terem abrigado
a primeira versão que o incriminava.
A nova declaração de Gedimar remete a uma rede de
interpretações. Confirmando-se a certeza da inocência
de Freud no episódio, seja qual for o resultado das eleições,
isso vai terminar em processo por calúnia, difamação
e outros substantivos igualmente pesados. Ele poderia estar tentando
se proteger. Depois dos episódios das fotos, o delegado
Edmilson, que disse, desdisse, desmentiu o dito, desmentiu o desmentido
e depois confirmou tudo, que ele mesmo entregara as fotos, perdeu
toda a credibilidade. Portanto, se é necessário
desovar a culpa em alguém, Edmilson cavou a própria
cova. Além disso, a versão agora apresentada por
Gedimar aponta para um grave crime cometido pelo interrogador,
que tem aura de chantagem: prometeu a liberdade caso a denúncia
fosse feita. E confirmaria a frase atribuída ao delegado,
que jornalistas teriam gravado (mas que os jornais nem confirmam
nem desmentem, ou seja, non solo é vera, como debe essere
bene registrata), sobre f... o PT e o governo. A versão
de que Gedimar estaria tentando proteger Lorenzetti pode até
ser verdadeira, mas ela não é suficiente para explicar
o episódio: é necessário saber por que entre
180 milhões de brasileiros ele escolheu um para apontar
o dedo: Freud.
De tudo isso, Flávio, pode-se concluir que:
1. a presença de Gedimar na cena do crime é fundamental
para o esclarecimento de tudo, bem como de que jogo ele estava
fazendo lá: era jogo duplo? Não era? Era uma implantação?
Era aquilo mesmo: avaliar o conteúdo do tal de dossiê?
2. Se Freud está ou não implicado, isso é
uma coisa, que até agora não tem foro de verdade,
não só pela presunção de inocência,
mas porque repetidas declarações o inocentam. Mas
que houve um jogo para plantar seu nome no caso, isso houve.
3. A terceira conclusão, Flávio, é que o
assunto vai longe, vai para depois das eleições.
4. A quarta conclusão, amigo, é que tudo quanto
foi feito até agora não é suficiente para
implodir a candidatura de Lula, conforme as mais recentes pesquisas
de intenção de voto vem demonstrando. A raiva e
a frustração dos arautos das classes dirigentes
que já subiu pelas paredes, vai agora arranhar o reboco
com as unhas. Virão mais marteladas nos dedos de quem defende
a candidatura de Lula e o frenesi pela busca de novas acusações
vai aumentar. Se a história recente do nosso partido (porque
assim me considero, embora nunca tenha sido filiado) permitisse
que nós dormíssemos tranqüilos, poderíamos
começar a rir antecipadamente. No momento, é melhor
sorrirmos para dentro, e manter a mira no inimigo, já que
na mira dele seguramente estamos. Um fraterno abraço, do
amigo Leblon."
Flávio Aguiar é editor-chefe da Carta Maior.
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