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O
dossiê do dossiê (IV): Minority repor
Reproduzimos hoje texto de Flávio Aguiar publicado no site
da Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br),
em 16/10/2006..
Flavio
Koutzii
A
eleição está deixando meu amigo Saul Leblon
com incontinência epistolar. Olhem só a mensagem
que ele me mandou, citando o filme ‘Minority report’
e a última edição da revista Veja, que tenta
arrastar Freud Godoy à cena do dossiê e ainda chama
o Marco Aurélio Garcia de 'bin laden'.
Flávio Aguiar
"Meu caro Flávio:
Você
se lembra daquele filme com Tom Cruise, o "Minority report"?
Nele um serviço de segurança do futuro dispunha
de meios para identificar e prevenir crimes. Quando aparecia o
nome do criminoso potencial lá na bola de cristal deles,
as equipes saíam à cata do suspeito para detê-lo
e impedir a consecução do malfeito. No filme tudo
acaba dando errado, pois o serviço se baseia numa presunção
de culpa típica das sociedades autoritárias, além
de outros problemas que não vou adiantar aqui para não
tirar o suspense de quem ainda não o viu. Em todo caso,
a idéia de impedir o crime se justificava no filme pela
sua natureza: tratava-se sempre de um homicídio. Se não
houvesse prevenção, a vítima iria para o
beleléu.
Nesta
semana várias coisas me trouxeram o filme à memória.
Uma delas foi o clima inquisitorial da revista Veja, com sua matéria
de capa "Limpeza de alto risco", em que tenta arrastar
Freud Godoy à cena do crime, quero dizer, à cena
do dossiê, e logo explicarei a diferença. Clima inquisitorial?
Não só isso: deselegante ao extremo. Lá pelas
tantas (pág. 58) chama o presidente interino do PT de "O
bin laden Marco Aurélio Garcia". Ora, qualquer um
que conheça Marco Aurélio sabe da inadequação
da referência.
Mas
o macartismo explícito vem numa frase da reportagem de
capa, depois de tentar mostrar, com base em documentos anônimos
(como anônima era a fonte das famosas fotos do dinheiro
no hotel, que no fim não era tão anônima assim)
que Freud negociou com Gedimar Passos e com outras gentes (há
até insinuações sobre dinheiros) o desmentido
deste quanto à participação do primeiro no
episódio desastrado da tentativa de compra do dossiê
Vedoin/Serra/Barjas Negri.
A
frase diz (pág. 49): "A favor de Freud, é claro,
se pode levantar a hipótese de que um homem inocente tem
o direito de tentar de todas as maneiras, mesmo as mais desesperadas,
provar sua inocência". Que ato falho do redator de
plantão, hein, Flávio? Além de declarar Freud
inocente, a frase transforma um direito numa hipótese,
e inverte o princípio consagrado de que a prova cabe à
acusação, não ao acusado. Ou seja, ela saiu
diretamente dos princípios que norteavam os processos do
Santo Ofício, mais conhecido como Inquisição,
em que o ônus da prova era sempre do acusado que, em geral,
nem sabia qual era a acusação que pesava contra
ele.
Mas
há mais, meu caro Flávio. A leitura da matéria
brilhante de Raimundo Pereira em Carta Capital, em que ele conta
como foi a urdidura da trama das fotos e da ocultação
de quem era a fonte, o delegado Edmilson Bruno, por parte da imprensa
envolvida, também me lembrou do filme Minority report,
mas por outra razão. Edmilson Bruno foi quem deteve os
aqualoucos, como diz você, do PT naquele hotel em S. Paulo.
Mas
veja bem, meu caro Flávio, esta operação
da PF não seguiu seu padrão usual. Vamos voltar
no tempo, meu caro, vamos recordar cenas mostradas à larga
de casos semelhantes, em que vai se pagar uma propina em troca
de um favor. A filmagem é feita até completar-se
o delito, a troca de mãos do dinheiro e do objeto ou a
promessa do favor. Depois a polícia intervém e pega
os caras com a mão na botija, no caso, no dossiê.
Neste caso não. Curioso, hein, Flávio? Os agentes
envolvidos agiram como no "Minority Reporto". Os supostos
vendedores do dossiê foram barrados antes, e o flagra no
hotel deu-se apenas com os atrapalhados compradores.
Começa,
caro, que comprar informação não é
crime. Tratou-se portanto de um flagra em cima de um não-crime,
que sequer chegou a acontecer: o não-crime que não
aconteceu! Crime poderia estar na obtenção da vultosa
soma, se irregular. Assim mesmo, para caracterizar o ilícito
completo, mister se fazia testemunhar a operação
em execução, não apenas o projeto de eventualmente
executá-la: teria que haver diálogos, troca de idéias,
valiações, mostrando a intenção de
usar de modo ilícito o tal de dossiê – que
na verdade nem chegou a S. Paulo.
A
forma da operação mostra que, no fim de contas,
seu objetivo era e seu resultado foi */exibir o dinheiro e preservar
o dossiê/* – se é que ele existe de fato. De
quebra, envolveu-se Freud. Tanto era esse o objetivo da operação
comandada pelo delegado Edmilson que, como seu objetivo falhou,
pela intervenção republicana da cúpula da
PF, o delegado tenazmente mentiu aos colegas, foi ao local onde
se encontrava uma pilha de dinheiro, e a fotografou, entregando-a
com aqueles salamaleques de palavrões acobertados pela
imprensa aos seus destinatários primevos: os jornalistas
de plantão.
Na
entrega, só faltaram os emissários da equipe de
TV da campanha de Alckmin, que estavam na sede da PF quando os
detidos e a grana lá chegaram. Se o flagra fosse dado no
hotel durante ou após a troca de mãos entre o dinheiro
e o tal do dossiê, obrigação seria mostrar
ambos – dossiê e dinheiro – e isso não
estava, como pode se deduzir por sua forma, nos planos da operação.
O dossiê que chegou às telas da internet e das emissoras
de TV era uma bobajada de cenas constrangedoras, sim, mas inócuas
do ponto de vista de incriminação. Examinado pelos
supostos compradores, talvez a conclusão pudesse ser a
de que não valia a pena, e o flagra não teria razão
de ser.
Diz-se
em comentários na imprensa que sim o dossiê existe
de fato, que o deputado Fernando Gabeira o tem, mas este ultimamente
só se dedica a enxovalhar Lula e os petistas e a preservar
os tucanos, diz-se também que a PF do Mato Grosso o tem
e que a CPI também o tem, mas enfim, o dossiê parece
mais resguardado que o famoso segredo de Fátima, ou que
a verdade sobre a morte de Kennedy.
Meu
caro Flávio, por hoje chega. Mas mais teremos, porque a
capacidade de gerar culpados na imprensa, sem direito à
"hipótese" da defesa, só parece se igualar
à capacidade de alguns petistas em colocar os pescoços
– o deles e o nosso – na guilhotina".
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