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A REPORTAGEM QUE ESTÁ "ABALANDO O BRASIL"!!!
Reproduzimos abaixo, com pequenos cortes, a reportagem investigativa
de Raimundo Rodrigues Pereira, competente jornalista, publicada
na revista Carta Capital desta semana.
Flavio
Koutzii
OS
FATOS OCULTOS
ELEIÇÕES – A mídia, em especial a Globo,
omitiu informações cruciais na divulgação
do dossiê e contribuiu para levar a disputa ao 2º turno.
Por Raimundo Rodrigues Pereira
1. Pode-se começar a contar a história do famoso
dossiê que os petistas teriam tentado comprar para incriminar
os candidatos do PSDB pela sexta-feira 15 de setembro, diante
do prédio da Polícia Federal em São Paulo.
Dentro estão presos Valdebran Padilha e Gedimar Passos,
ligados ao PT e com quem foram encontrados 1,7 milhão de
reais. É por volta de 5 da tarde. A essa altura, estaciona
uma perua da Rede Globo. Ela pára entre duas outras equipes
de tevê: uma da propaganda eleitoral de Geraldo Alckmin
e outra da de José Serra. Aos poucos vão chegando
outras emissoras Que a Rede Glovo fosse a primeira a chegar, tudo
bem: ela tem uma enorme estrutura e com esse objetivo. Mas
como o pessoal do marketing político chegou antes?
As duas equipes pertencem à GW, cujos donos foram jornalistas:
o G é de Luiz Gonzales, ex-TV Globo, e o W vem de Woile
Guimarães, secretário de redação da
famosa revista Realidade, do fim dos anos 1960. Entre os jornalistas
logo se sabe quje foi Gonzales quem ligou para a Globo, avisando
do que se passava da PF.
E quem avisou Gonzales? Foi alguém da Polícia Federal?
Foi alguém do Ministério Público de Cuiabá,
de onde veio o pedido para atuação da PF? Fonte
do Ministério da Justiça disse a Carta Capital que
as equipes da GW chegaram à PF antes dos
presos. Gente da GW diz que a empresa soube da história
através de Cláudio Humberto, o ex-secretário
de imprensa do ex-presidente Collor, que tem uma coluna de fofocas
e escândalos na internet e que teria sido o primeiro a anunciar
a prisão dos petistas. Pode ser que sim, o que apenas leva
a pergunta mais para a frente: quem avisou Cláudio Humberto?
Procurando saber a quem interessava a divulgação
da história do dossiê e como essa divulgação
foi feita, voltemos ao prédio da PF duas semanas depois.
2. É 29 de setembro, vésperas da eleição
presidencial, por volta de 10h30m da manhã. Sai do prédio
o delegado Edmilson Pereira Bruno, 43 anos, que estava de plantão
no dia 15 e foi o autor da prisão de Valdebran e Gedimar.
Ele convida alguns jornalistas para uma conversa reservada, longe
dali. O delegado não sabe mas sua conversa está
sendo gravada.
Bruno diz que passar cópias das fotos do dinheiro apreendido
com os petistas, levando um CD com 23 fotos e três CDs Em
branco para copiarem as imagens. Fala que eles devem dizer: "alguém
roubou e deu para vocês", para explicar o aparecimento
das fotos. Diz que vai contar a mesma história a seus superiores.
Algumas
pessoas têm a fita de áudio com a conversa do delegado
Bruno com os quatro repórteres. Mais pessoas ainda a ouviram.
Uma delas é o jornalista Luiz Carlos Azenha, que tornou
público vários de seus trechos no seu site pessoal
na internet www.viomundo.globo.com.
Azenha, que é repórter da TV Globo, não quis
dar entrevista a Carta Capital. Para o que mais interessa ao desenrolar
da história, dos trechos da fita, deve-se destacar a preocupação
de Bruno em faz\er com que as fotos chegassem no dia ao Jornal
Nacional. "Tem alguém da Globo aí?", pergunta
ele. Um dos quatro responde: "Tem o Bocardi". "Não
é o Tralli? O Tralli está muito visado", Bruno
diz, referindo-se a Cesar Tralli e ao incidente, conhecido de
muitos, de que esse repórter da TV Globo ter podido acompanhar,
praticamente disfarçado de Polícia Federal, a prisão
de Flavio Maluf, filho de Paulo Maluf.
Mas
a preocupação principal de Bruno é a que
ele reitera nesse trecho: "Tem de sair hoje à noite
na tevê. Tem de sair no Jornal Nacional".
3. As fotos serão divulgadas, com imenso destaque, no dia
29, véspera das eleições, repita-se, no Jornal
Nacional. Mas não apenas no JN. A Folha de São Paulo
publicou, com grande destaque na primeira página, a foto
na qual o dinheiro está empilhado de forma que as notas
apareçam com a frente voltada para o leitor e que foi feita
de baixo para cima, que pé a que mais dá a impressão
de "montanha de dinheiro". E não divulgou que
as fotos lhe tinham sido passadas por um policial visivelmente
empenhado em fazer com que elas tivessem um uso político
claro, de interferir no pleito de 1º de outubro.
A Folha também tinha a fita de áudio, que foi levada
por sua repórter. A editora-executiva do jornal, Eleonora
de Lucena, não quis responder por que omitiu as informações
dessa fita. Alguns dos repórteres disseram que não
deviam preservar o sigilo da fonte . Mas porque ela não
deu a informação de que se tratava de uma intervenção
política no processo eleitoral, publicanedo os trechios
da fita de áudio, que tornam isso explícito, sem
citar o nome da fonte?
O mais curioso, para dizer o mínimo, é que a Folha
publica, junto com as fotos do dinheiro uma matéria na
qual conta o que o delegado Bruno disse depois, na tarde do mesmo
dia 29, ao conjunto de jornalistas na frente da PF. No texto,
assinado pela repórter do jornal que recebeu as fotos de
Bruno pela manhã, se diz: "O delegado Bruno disse,
ontem, em coletiva à imprensa, que o CD com as fotos havia
sido furtado de sua sala na PF – e que ele estava sendo
injustamente acusado de ter repassado o material aos jornalistas".
Pergunta-se: qual é o sentido de publicar uma informação
que a jornalista sabia que é evidentemente mentirosa e,
no caso, ainda ajudava o policial a tentar enganar a própria
imprensa?
O Estado de São Paulo do dia 30 publica a mesma foto, com
texto onde diz que a publicação das fotos é
a abertura "de um segredo que o governo Lula mantinha a sete
chaves". E também uma espécie de defesa do
delegado Bruno.
4. No dia 29, no Jornal Nacional, da Globo, não há
espaço para mais nada: a tragédia do avião
da Gol não entra; o noticiário eleitoral, com destaque
para as fotos do dinheiro dos petistas, é praticamente
o único assunto. Qual a razão da omissão
do JN? A emissora levou um furo, como se diz no jargão
jornalístico, ou decidiu concentrar ses esforços
no que lhe pareceu mais importante? Qualquer que seja o motivo,
o certo é que a questão da divulgação
das fotos mobilizou a cúpula do jornalismo da tevê
dos Marinho.
A
fita de áudio com a conversa de Bruno com os jornalistas
e o CD com as imagens do dinheiro foram passados à chefia
de jornalismo do JN em, São Paulo e de lá foram
levadas a Ali Kamel, no Rio, editor em última instância
de todo o noticiário político da emissora carioca.
Compreende-se
porque a decisão sobre o que fazer com o áudio e
com as fotos tivesse de ser tomada pelas mais altas autoridades
da emissora. Se divulgasse o conteúdo exato das duas informações,
a Globo estaria mostrando que o delegado queria usar a emissora
para os claros fins políticos que manifestava e que a emissora
tinha feito a sua parte neste projeto. "Não nos interessa
ter essa fita. Para todos os efeitos, não a temos",
teria dito Kamel. A informação complicava a Globo,
a informação sumiu.
5. Este comportamento provocou reclamações de vários
funcionários da emissora, pois não havia tratamento
igual para as duas pontas da história. A ponta que envolvia
" a podridão dessa banda sindical petista", como
dizia um desses funcionários revoltados, era amplamente
divulgada. Já a outra, que envolvia articulações
de Abel Pereira, empresário de Piracicaba, com interesses
no Ministério da Saúde na época dos governos
tucanos, era praticamente omitida.
Este
viés anti-PT e pró-tucano, que não foi apenas
da Globo, mas dos principais jornais e revistas da imprensa, fez
com que não saísse a informação de
que a história do dossiê começa com a investigação,
pelo grupo de inteligência comandado por Jorge Lorenzetti,
da ida de Abel Pereira a Cuiabá, supostamente para tentar
comprar dos Vedoin um outro dossiê, de informações
que poderiam incriminar os tucanos José Serra e Barjas
Negri, ministros da Saúde no governo FHC. Outros petistas,
acusados de envolvimento no caso, foram enviados a Cuiabá
numa operação de contra-espionagem. Há provas
deste trabalho. Nos dias 23 e 24, Abel Pereira esteve em Cuiabá
e foi espionado por um fotógrafo, contratado por Gedimar
e Veloso. Abel tentaria comprar por 10 milhões de reais,
as informações de que os Vedoin tinham contra os
tucanos. O dia 14 de setembro é a data em que Bargas e
Veloso acompanharam a entrevista da Isto É com os Vedoin,
reportagem de capa da revista naquela semana. A matéira
mostrava o que e do conhecimento de todos os jornalistas que pesquisaram
minimamente o assunto: que 70% das ambulâncias comercializadas
pela Planam, a empresa dos Vedoin, entre 2000 e 2004, tiveram
suas verbas liberadas nas gestões de Serra e Negri.
É
absolutamente razoável supor que Serra e Negri sejam pessoas
acima de qualquer suspeita. E também razoável supor
que as negociações de Abel com os Vedoin sejam lícitas,
mesmo porque não é crime comprar informações.
É também justo ficar indignado com o baixo nível
da política que se fundamenta no esforço de provar
que o candidato adversário ou é ladrão ou
está ligado a ladrões. Mas pergunta-se: por que
achar que os petistas são os piores de todos os políticos,
sem investigar o outro lado? Essa era a pergunta que faziam à
direção da Globo alguns de seus funcionários
de São Paulo.
6. Outra omissão é o pouco destaque dado ao comportamento
do procurador Mário Lúcio Avelar. Avelar é
o mesmo procurador cujo trabalho resultou na divulgação,
no começo de 2002, das fotos de dinheiro apreendido na
empresa Lunus, do marido de Roseana Sarney, à época
pretendente ao cargo de presidente pela coligação
PSDB/PFL, com pesquisas de opinião que mostravam uma ascenção
espetacular de seu nome, com índices próximos aos
de Lula e superiores ao de José Serra, que acabou sendo
o candidato da coligação conservadora.
Com
a divulgação das imagens do dinheiro apreendido,
também numa operação da Polícia Federal,
como agora, também com o vazamento das fotos para a imprensa
e, especialmente, para o Jornal Nacional, Roseana despencou nas
pesquisas e acabou ficando de fora do pleito. Mais tarde o dinheiro
foi devolvido a Lunus e se concluiu que não havia nada
de ilegal.
Avelar
era, na época, procurador da República em Tocantins,
de onde foi afastado no fim de 2002, por Geraldo Brindeiro, por
ter indiciado políticos com mandato, sem ter competência
legal para fazê-lo. Em Mato Grosso, para onde seguiu depois,
foi o comandante jurídico da operação que
resultou na prisão de 93 pessoas, entre elas o diretor
de florestas do Ibama, que pegou quatro noites de prisãio,
foi liberado e completamente inocentado. Avelar acabou confessando
ao delegado que chefiou a investigação que nem sequer
devia tê-lo ndiciado.
No
caso do atual dossiê, Avelar insinuou que o dinheiro era
público. Disse, em tom de ironia: "Veja bem, estamos
falando de um partido político que tem o comando do País.
Não tem mais nada... só o País. Pode sair
de onde o dinheiro? No dia 19 de setembro Avelar pediu a prisão
preventiva de Freu Godoy, uma espécie de segurança
pessoal do presidente Lula. O juiz Marcos Alves Tavares, da Segunda
Vara Federal, rejeitou o pedido feito por Avelar e, além
da argumentação contra o pedido, escreveu: é,
"no mínimo, contraproducente que um pedido de prisão
temporária seja divulgado na imprensa antes de sua análise
pelo juízo." Desde a manhã circulava a informação
da prisão de Freud pela internet.
Avelar
voltou à carga e pediu a prisão preventiva de Bargas,
Lorenzetti, Freud, Velçoso, gedimar e Valdebra, no dia
25 de setembro, às 21 horas, três horas antes do
horário a partir do qual não são mais permitidas
as prisões de qualquer cidadão, a não ser
em flagrante delito,
7. A investigação do procedimento de Avelar é
importante por um motivo que o jornalista maranhense Walter Rodrigues,
que ajudou Carta Capital na preparação desta matéria,
chama o "modus operandi" do tipo de infração
no qual o promotor pode estar se especializando. Ela pode ser
definida assim: Vive-se um período eleitoral. Procuradores
e policiais civis estão ativos, investigando diversos tipos
de delito. E começam a misturar os trabalhos que estão
fazendo com suas preocupações partidárias.
E aí e desviam do mandado que receberam, passando a investigar
pessoas e entidades adversárias.
Isto
é uma grave violação do princípios
da Justiça. O mandado para a investigação
de Cuiabá não era contra os Vedoin, pessoalmente.
Era uma investigação de superfaturamento de ambulâncias
e de suborno de parlamentares. No meio da investigação
surgem os telefonemas dos arapongas do PT.
Mas do que os petistas do casso do dossiê são acusados?
De comprar informações? Não, porque este
não é um crime tipificado em lei. A Globo encontrou
advogados que lhe permitiram dizer: "Há duas hipóteses
de o episódio vir a configurar crime. A primeira, se for
comprovada a origem ilícita do dinheiro apreendido. Neste
caso, os envolvidos poderiam ser processados por crime de ocultação
de valor proveniente de ilícito.(...) A segunda possibilidade
é a de o dossiê conter falsas provas, configurando
crime eleitoral de obtenção de documento material
ou ideologicamente falso, para fins eleitorais".
Os
petistas já foram presos, agora trata-se de achar os crimes
que possam ter cometido.
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