| O
silêncio da mídia. E a nova fronteira da liberdade
Reproduzimos hoje texto de Flávio Aguiar publicado no site
da Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br),
em 22/10/2006.
Flavio
Koutzii
Reitores,
professores e artistas rompem o silêncio do qual chegaram
a ser acusados pela mídia conservadora tempos atrás,
e lançam manifestos e dão declarações
de apoio à Lula na reta final do segundo turno. Sintomaticamente,
a mesma mídia que antes ironizava o suposto silêncio
progressista agora é quem emudece.
Data: 22/10/2006
Meu
Amigo Saul Leblon me envia mais uma missiva:
"Nos últimos dias intensificou-se a mobilização
de inúmeros setores intelectuais para barrar o "risco-Alckmin"
de recondução do conservadorismo tucano ao poder,
conforme mostrou Carta Maior com a reportagem "Meio acadêmico
vê onda de manifestações contra Geraldo Alckmin".
Reitores, professores e artistas rompem o silêncio do qual
chegaram a ser acusados
pela mídia conservadora tempos atrás, e lançam
manifestos e dão declarações de apoio à
Lula na reta final do segundo turno.
Sintomaticamente, a mesma mídia que antes ironizava o suposto
silêncio
progressista
agora é quem emudece.
Jornais, repórtes especiais e colunistas ignoram declarações
de personagens antes frequentemente requeridos para adicionar
tempero gauche à escalada crítica contra o governo
e o PT. Ao optarem dignamente pela formação de uma
histórica frente de esquerda contra a candidatura da direita,
a mídia dispensa-se de ouví-los. Não argüi
as razões progressistas dessa decisão. Ignora a
reflexão dos marxistas sobre o risco-tucano (leia entrevista
com Chico de Oliveira "Agora eu voto em Lula")
É a new-isenção. A volta do manual de redação
conservador ao qual sucessivas gerações midiáticas
recorrem quando se trata de optar entre povo ou elite, direita
ou esquerda. Às favas o figurino clean. Abaixo o enfado
pós-moderno. O porrete da luta de classes está de
volta. E gira nas redações para impor ordem unida
às manchetes, fotos, definições de espaços,
hierarquias de chamadas e "esforços de reportagem".
Veja, Flávio, a manchete do Estadão no sábado:
"Assessor de Lula foi o mentor do dossiê, diz PF".
O relatório parcial da PF - que
esvaziou em parte o carreiro de denúncias que se anunciava
para o fim de semana - diz que o responsável foi Jorge
Lorenzetti, até então largamente tratado como "churrasqueiro",
ou "amigo", de Lula. Quem era insistentemente chamado
de "assessor" era Freud Godoy, que o relatório
sequer menciona. Lindo, não, esse jornalismo: com uma só
paulada quer-se atingir dois, ou três: Jorge, Freud e, é
claro, Lula.
De forma explícita ou implícita, dita à boca
pequena ou com a boca cheia de preconceito
a orientação é uma só: destruir a
esquerda. Desmoralizar seus representantes.
Denegrir suas biografias. Custe o que custar.
Deu certo em 1964. Em 1989 também, com a reedição
"isenta" do debate Lula/Collor
feita pela Globo. Quase funcionou para surrupiar a vitória
de Brizola
no Rio de Janeiro, no primeiro pleito pós-redemocratização.
E foi exitosa
no primeiro turno destas eleições, ao esconder a
endogâmica associação entre a imprensa e o
delegado Edmilson Pereira Bruno, na operação midiático-policial
que divulgou as fotos do dinheiro do dossiê Serra/Vedoin
- 48 horas antes da votação. Veja-se, a respeito,
as precisas reportagens de Raimundo Pereria em Carta Capital,
a anterior e a desta semana (onde, inclusive, corrige a informação
de que o repórter César Tralli, da Globo, teria
recebido antes o cd com as fotos. A informação correta
inocenta Tralli, mas não a Globo).
Como nos bons tempos, a new-isenção jogou pesado
neste episódio. Na edição do dia 29 de setembro
o Jornal Nacional não hesitou. Omitiu qualquer menção
ao maior desastre da história da aviação
brasileira, o desaparecimento do Boeing da Gol, com 155 passageiros
à bordo, que o Jornal da Band havia noticiado, já
como um acidente confirmado, minutos antes de o JN entrar no ar,
às 20 hs.
A regra do porrete se sobrepôs à hierarquia dos fatos:
155 passageiros desaparecidos
desde às 17 horas? É muito para dividir a emoção
do telespectador numa noite só. Adie-se o desastre aéreo
a bem da ênfase nas imagens do dinheiro. Assim se fez. Assim
se faz. Cumpriu-se a orientação expressa do delegado-editor
Edmilson Bruno na tarde daquele dia "..tem que sair no Jornal
Nacional".
Até aí, estamos no previsível. Porém,
há uma novidade com a qual o manual de redação
conservador não contava: a capilaridade e a repercussão
da Internet nestas eleições. De repente, Flávio,
aquilo de que tanto já se falou, em tese e desejo, materializou-se
numa nova fronteira da liberdade de imprensa no país. Uma
rede infomal de sites, blogs, posts etc encarou o porrete conservador
de frente; deu-lhe nome e sobrenome. Enquadrou-o num lado da disputa
política.
Subtraiu-lhe o auto-concedido apanágio da isenção.
E o fez com o melhor argumento
possível: divulgando o que ele suprime. E o alcance não
é pequeno: dados do Ibope dizem que, se em 2000 havia quase
10 milhões de usuários da internet no Brasil; hoje
são 21 milhões. Se levarmos em conta que o boca
a boca continua sendo o meio de informação mais
confiável no país, e que cada internauta dispões
de pelo menos quatro pares de orelhas ao seu alcance, o número
se potencia enormememente, chegando a potenciais 100 milhões
de "alcançáveis".
É cedo para dizer que a vida nunca mais será a mesma
para os auto-declarados donos da narrativa do país. Mas,
sem dúvida, o futuro do monopólio midiático
- intocado legalmente - ficou comprometido na prática.
A trinca aberta na resistência das últimas semanas
entusiasma diariamente milhões de novos pés a forçarem
a fresta da porta para ampliar o espaço da liberdade de
imprensa no país.
Já há troféus a comemorar. E não desprezíveis.
O complô do vazamento das fotos do dinheiro, desmascarado
pela revista Carta Capital, foi abafado pelos jornalões
num primeiro momento. Mas a repercussão na Internet tornou-se
insuportável e obrigou aqui e ali a se romper o silêncio
envergonhado de colunistas e jornais, muitos deles acossados por
cartas de leitores indignados.
Nas redações há certo pejo. Misturado a nojo.
Reina crescente desconforto no papel de coadjuvantes de golpistas
ao qual repórteres têm sido obrigados a atuar. O
clima não é bom. Aqui e ali chefias se colocam na
defensiva. E chefões globais têm de vir a público
prestar esclarecimentos rotos, numa tentativa inusitada de resgatar
as aparências para efeito externo, mas principalmente interno.
A nova fronteira da liberdade de imprensa tem sido bem sucedida
também em avançar sobre outro estirão do
muro de silêncio. Aquele que ainda resiste em repercutir
a histórica formação de uma frente única
de esquerda de apoio a Lula. Um fato político articulado
em grande parte no espaço digital que desconcertou os jornalões
na sua obstinada tentativa de, agora sim, impor o silêncio
aos intelectuais.
Até quando resistirão a essa nova pauta? Depende.
Em primeiro lugar, da capacidade
de irradiação dessa frente na Internet e, depois,
da ampliação das adesões a ela.
Leia à proposito - e divulgue -, o manifesto de Reitores
do Brasil de apoio à política
educacional de Lula. Se ainda não leu, não deixe
de conferir em Carta Maior a reportagem "Meio acadêmico
vê onda de manifestações contra Geraldo Alckmin"
e a entrevista histórica do sociólogo Chico de Oliveira
("Agora eu voto em Lula"). Muito interessante também
o texto de Paulo Henrique Amorim, COMO GOVERNAR QUANDO TODA A
IMPRENSA É CONTRA, postado no seu blog em que discute o
papel da Internet na refundação da liberdade de
imprensa no Brasil.
É isso aí, Flávio. Eu previra a quantidade
de lixo e ódio que viria à tona até o fim
da eleição. Os petistas envolvidos em ilícitos
deram munição à corja; mas o que se destila
das páginas e blogues conservadores é puro ódio
ideológico e de classe, com ou sem gelo.
Teu amigo, Leblon".
Manifesto de Reitores
Atendendo à sugestão de Leblon, reproduzimos aqui
o início do manifesto dos reitores à nação
brasileira:
"Num momento crucial para o país, os dirigentes das
Instituições Federais de Ensino Superior (IFES)
abaixo assinados, vêm a público manifestar sua preocupação
quanto ao futuro da educação superior brasileira.
Posicionamo-nos para que não se interrompa a trajetória
recente de investimentos na expansão e qualificação
de nossas Universidades públicas, patrimônio nacional.
Este é um ato de cidadania. Em respeito ao direito dos
brasileiros de todas as regiões do país, não
podemos admitir qualquer possibilidade de retrocesso nas conquistas
dos últimos anos. Não aceitaremos o retorno de situações
como a que predominou no passado recente, quando, na contramão
da história, os orçamentos das IFES despencaram
em 25%, relativamente aos seus valores históricos, com
o sucateamento
correspondente do parque universitário público,
e o setor privado de ensino hipertrofiou-se, atingindo quase 80
% das matrículas".
Seguem-se as assinaturas de 36 reitores de universidades federais
brasileiras.
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