| Ganhos
e perdas das eleições. O futuro aberto do Brasil
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* texto de Emir Sader publicado em seu blog, no site da Agência
Carta Maior
(www.agenciacartamaior.com.br),
em 25/10/2006.
Flavio
Koutzii
Termina
a mais longa campanha eleitoral da história do Brasil.
Podemos situar seu início há um ano e meio atrás,
quando a oposição iniciou as denúncias do
que passou a ser chamado de "mensalão" –
em abril de 2005. Ou pode-se localizar o início nas eleições
municipais de outubro de 2004 quando, animada com os resultados
obtidos, a oposição elegeu seu candidato –
Severino Cavalcanti, posteriormente cassado por acusações
de corrupção – presidente da Câmara
de Deputados, derrotando ao governo, que tinha um petista –
Luiz Eduardo Greenhalg – como candidato.
A partir dali se foram constituindo os dois blocos políticos
que se enfrentaram ao longo de todos esses meses, configurando
finalmente a polarização entre direita e esquerda,
como ela se apresentou com clareza no segundo turno das eleições
presidenciais. O segundo turno possibilitou o enfrentamento entre
os dois maiores blocos de forças, os que possuem potencial
hegemônico, definidos em torno de suas características
diferenciais.
A vitória de Lula representa a expressão eleitoral
de que o povo brasileiro considera que a desigualdade social é
o problema central do país. A diferenciação
significativa entre as intenções de voto dos estratos
mais ricos, de maior nível educacional e do sul do Brasil
– diferenciado das outras regiões pelo nível
de vida mais alto, assim com o nível educacional e por
uma composição étnica majoritariamente branca
– e os mais pobres, de menor nível educacional e
das outras regiões é suficientemente significativo,
para não deixar nenhuma dúvida sobre seu peso no
resultado final.
Dos mais de 60% de intenções de voto, Lula recebe
74% no nordeste, 56% no norte, 54% no sudeste e 44% no sul. Recebe
64% dos que possuem ensino fundamental, 56% dos que tem ensino
médio e 40% dos com ensino superior. Conta com 64% dos
que recebem até 2 salários mínimos, 56% do
estrato de entre 2 e 5 salários mínimos, 50% dos
que recebem entre 5 e 10 e 38% dos de mais de dez salários
mínimos. Lula perde apenas neste último estrato,
nos de maior escolaridade e na região sul, ganhando em
todos os outros. Isto também significa que os votos que
obtêm não se restringem ao voto dos pobres, porque
ele triunfa na região sudeste, nos de escolaridade média
e nos que recebem de 5 a 10 salários mínimos, além
de ter expressiva intenção de voto no sul, nos maior
rendimento e de maior escolaridade.
O país não está dividido socialmente entre
direita e esquerda, mas o caudal de votos do bloco de esquerda
é significativamente dos de menor renda e menor escolaridade.
Não é a candidatura de Lula que introduziu a desigualdade.
Ao contrário, são as políticas do seu governo
as que, pela primeira vez na história do Brasil, diminuíram
essa desigualdade. Sua candidatura expressa a nível político
a vontade de superação da desigualdade, que está
inscrita na nossa história e na nossa estrutura social
pelas orientações que os sucessivos governos imprimiram
ao país.
Os que acreditam que essa configuração expressa
a falta de importância atribuída pelos mais pobres
às questões éticas, não olham para
as fisionomias dos que protagonizam os escândalos morais
do país – além dos denunciados, os que ainda
proliferam pelo Brasil afora. Não são os pobres,
não os trabalhadores, não são os de menor
nível de renda e de escolaridade.
Os que acreditam que sejam empresas estatais os espaços
privilegiados para a corrupção não consideram
que os maiores escândalos de corrupção da
história foram protagonizados por grandes corporações
privadas norte-americanas – com a Enron em primeiro lugar
– e somente não são maiores, pela complacência
com que os governos e as instâncias que deveriam fiscalizá-las
tem em relação a elas, protegidas ademais, via de
regra, pela grande mídia – com a qual costumam ter
relações promíscuas – e pelos segredos
de funcionamento das empresas. As empresas estatais são
passíveis de controle, de denúncia, de superação
pelo voto popular, pelos governos e pelos parlamentares.
Aproxima-se a hora de fazer o balanço dos ganhos e perdas
dessa longa e quase interminável campanha. Os ganhos seguramente
se situam na expressão socialmente significativa do voto
de extração social popular e na polarização
mais clara entre direita e esquerda no segundo turno. As perdas,
no debilitamento da política e dos partidos e no papel
manipulador – embora derrotado esta vez – da grande
mídia monopolista privada.
Derrotado o bloco de direita – e seus maiores caciques,
particularmente derrotados: Tasso Jereissatti, Jorge Bornhausen,
Antonio Carlos Magalhães, Fernando Henrique Cardoso –
e a grande mídia. Vitorioso Lula e a esquerda, que se mobilizou
no segundo turno para propiciar-lhe a vitória. Resta saber
como cada um deles lerá os resultados e atuará em
seguida. Tal como a história da América Latina,
a história brasileira insiste em manter-se aberta às
grandes transformações no novo século.
Postado por Emir Sader às 08:24
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