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O
direito à festa e à luta
Reproduzimos texto de Emir Sader, importante
abordagem da
nossa trajetória recente, com alegria e sem amnésia!
Boa Leitura.
Flavio
Koutzii
Há
exatamente quatro anos atrás comemorávamos –
tantos de nós na Avenida Paulista, outros tantos pelo Brasil
afora e para além daqui -, finalmente a vitória
de Lula, a vitória do PT, a vitória da esquerda.
Nos encontrávamos com tanta gente que colocava para fora,
nas lágrimas, nos gritos, tanta coisa reprimida, que vinha
de longe: da lembrança dos companheiros que não
puderam comemorar aquilo conosco às frustrações
acumuladas de ver o país ser despedaçado pelo governo
que terminava – finalmente – derrotado naquele dia.
Comemorávamos, mas com um travo amargo na garganta. Sabíamos
que era o nosso governo, mas alguma coisa nos escapava ali. Ganhávamos,
fechávamos o governo FHC com sua derrota – o mais
importante naquele momento -, mas se desenhavam sombras sobre
a vitória, que indicavam que ela nos escapava. Da "Carta
aos brasileiros" ao "Lulinha, paz e amor", de Duda
Mendonça a Palocci e – confirmando tristemente as
sombras, a Henrique Meirelles -, mais do que algo nos apontava
que a nossa vitória não era necessariamente nossa
vitória, a vitória da esquerda, a vitória
do anti-neoliberalismo, a vitória do "outro mundo
possível" pelo qual estivéramos lutando tanto
tempo.
Havíamos lutado contra as privatizações,
havíamos lutado contra as (contra) reformas neoliberais,
de menos Estado, menos políticas sociais, menos regulamentação,
menos direitos trabalhistas, menos empregos formais, menos soberania,
menos esfera pública, menos educação pública,
menos cultura pública. Havíamos lutado contra a
cassação de direitos dos trabalhadores, dos aposentados,
dos trabalhadores sem terra, das universidades públicas,
da saúde pública. Havíamos resistido e naquele
dia sentíamos que, apesar de tudo o que se havia dilapidado
do país, havíamos derrotado ao projeto neoliberal
de FHC, havíamos triunfado.
O dia da posse e do discurso de Lula em Brasília parecia
o ponto de chegada de mais de uma década de lutas de resistência,
em que o Brasil se havia tornado depositário das esperanças
da esquerda de todo o mundo. O Brasil de Lula, do PT, do MST,
da CUT, de Porto Alegre, do orçamento participativo, do
Fórum Social Mundial.
Nossas desconfianças se confirmaram com mais rapidez do
que supúnhamos. Henrique Meirelles, manutenção
da taxa de juros, superávit fiscal – eram pontas
de iceberg mais profundo: a manutenção do modelo
econômico herdado de FHC. Primeiro, chamado de "herança
maldita". Que não foi desembrulhado como pacote, para
mostrar o Brasil desfeito e refeito como Bolsa de Valores nas
mãos dos tucanos-pefelistas, o Brasil da privataria na
educação e na cultura, do maior escândalo
da história do país com a privatização
das estatais – saneadas com o dinheiro público do
Bndes, para em seguida serem vendidas a preços de banana,
de novo com recursos públicos do Bndes.
Em nome da superação dessa "herança"
nos foi empurrada uma (contra) reforma da previdência, que
desatou um fatal desencontro entre os movimentos sociais e o governo,
porque assinalava um caminho de "reconquistar a confiança
do mercado" às custas de direitos sociais dos trabalhadores.
O nosso governo fazia o que chegou a ser dito que fazíamos
"o que FHC não tinha tido coragem de fazer" –
sem dizer que era porque não teve força, pela resistência
que nós lhe opusemos.
Não demorou para que o modelo – primeiro chamado
de "herança maldita" – fosse perenizado,
com a manutenção das taxas de juros reais mais altas
do mundo, com um superávit fiscal mais alto que o definido
pelo FMI, com a ditadura dos "contingenciamentos" de
recursos pela equipe econômica, que passou a ter o poder
de definir quantos recursos iriam (ou não iriam) para as
políticas sociais, qual o aumento possível do salário
mínimo e tudo o mais que deveria ter sido a referência
central do governo, se fosse para cumprir a "prioridade do
social" para o qual tinha sido eleito.
Logo se perpetuou o modelo, logo se afirmou que ela era o melhor,
se agradeceu em abraço ao antecessor de Lula pela herança
- a partir dali rebatizada de bendita - que havia deixado e se
afirmou que "dez anos eu tivesse, dez anos manteria este
superávit fiscal". Acompanhava-se um discurso desmobilizador,
de auto-complacência, que não apontava quais eram
os adversários, os que haviam produzido o pais mais injusto
do mundo, que levou Lula à presidência para redimi-lo
e não para perenizá-lo.
Nunca sentimos tanta amargura. Porque uma coisa era ver o país
ser despedaçado pelos que nos haviam derrotado, outra era
ver uma equipe no Banco Central completamente alheia a toda a
tradição dos economistas do PT se dar o direito
de predominar sobre o que notabilizou o PT – suas políticas
sociais. Outra coisa era ver grandes empresários fazerem
predominar seus interesses agronegocios-exportadores, de disseminação
dos transgênicos, sobre os sem terra, a reforma agrária,
a economia familiar, a auto-suficiência alimentar no nosso
governo. Outra coisa era ver as rádios comunitárias
serem reprimidas em lugar de serem incentivadas, a imprensa alternativa
sobreviver a duras penas, enquanto o governo continuava a alimentar
os grandes monopólios anti-democráticos da mídia
privada. Outra coisa era ver os softwares alternativos serem subestimados
ou descartados em favor dos grandes lobbies das corporações
privadas. Pelo nosso governo.
Foi duro, foi muito duro. Talvez tivesse sido mais fácil
– se tudo fosse pensado do ponto de vista da biografia individual
de cada um – ter rompido, ter ido embora, ter dito tudo
o que o governo merecia ouvir, com todos os tons e sons. Mas teria
sido dizer que tínhamos sido irremediavelmente derrotados,
que tudo o que tínhamos feito nas décadas anteriores
tinha desembocado numa imensa derrota. Teria sido abandonar as
trincheiras de luta que tínhamos construído com
tanto esforço e sacrifício.
Dava vontade. Em certos momentos teria sido muito mais fácil
deixar correr solta a palavra, aderir à teoria da "traição",
refugiar-nos nas denúncias e abandonar a possibilidade
de construir uma alternativa concreta.
Como se não bastasse tudo isso, vieram os "escândalos":
Waldomiro Diniz, Roberto Jéferson, "mensalão",
"sanguessugas" – cada um como uma nova estaca
no nosso coração. A imagem ética do PT, construída
como a menina dos nossos olhos era revertida. Nos tornávamos
o partido dos "maiores escândalos da história
do país". A palavra "petista" passava a
ser revestida de uma desconfiança de "corrupção".
Nada de pior poderia acontecer a um partido que tinha nascido,
crescido, se fortalecido e se tornado vitorioso com as bandeiras
da "justiça social e da ética na política".
Não éramos fiéis nem a uma nem à outra.
No entanto, não nos fomos. Ficamos. Seguimos tentando encontrar
os fios para retomar o caminho de que nos havíamos desviado.
Sabíamos que os grandes enfrentamentos ainda estavam por
ser dados. Sabíamos que nossa política externa era
a correta e se havia tornado essencial para o continente –
agora povoado de governos progressistas, como nunca na história
da América Latina. Sabíamos que nos podíamos
orgulhar da Petrobrás – que quase havia se tornado
Petrobrax nas mãos criminosas dos tucanos -, da auto-suficiência
em petróleo, de que uma das maiores empresas do mundo havia
resgatado o Brasil da crise do petróleo através
de uma tecnologia de pesquisa e extração de petróleo
em águas profundas, com tecnologia nacional e pública.
Sabíamos que a privataria na educação, que
havia feito proliferar faculdades e universidades privadas como
verdadeiros shopping-centers que vendiam educação
como big-macs, havia terminado. Que se fortaleciam as universidades
públicas, que passávamos a ter, pela primeira vez,
políticas públicas de cultura, abertas à
criatividade e à diversidade popular. Que Lula não
era FHC, que o PT não era o PSDB. Que os movimentos sociais
não eram mais criminalizados e reprimidos. Que a relação
com a Venezuela, a Bolívia, Cuba, a Argentina, o Uruguai
– era de irmandade e não de preconceitos de quem
olha para o Norte e para fora. Que a Alca tinha sido brecada e
derrotada pela nossa política externa. Que o Brasil tinha
sido o principal responsável pela reaparição
do Sul do mundo no cenário internacional com o Grupo dos
20 e as alianças com a África do Sul e a Índia.
Que as políticas sociais do governo, mesmo não sendo
as que historicamente haviam caracterizado ao PT, mudavam, pela
primeira vez, o ponteiro da desigualdade – a maior do mundo,
o maior desafio da história brasileira – no sentido
positivo. Que nem que fosse por solidariedade com a grande maioria
dos brasileiros – pobres, miseráveis, excluídos,
discriminados, humilhados e ofendidos secularmente -, tínhamos
que valorizar essas políticas sociais.
Ficamos também porque sabíamos que ir-se seria recair
na velha e infértil tentação do refúgio
no doutrinarismo – caminho justamente que o PT se havia
proposto a superar. Seria retomar o velho circulo de Sísifo,
interminável de avanços, vitória, "traição"
e retomada da resistência. Como uma tragédia grega
que havia condenado a esquerda a ter razão, mas ser sempre
derrotada. A ter vergonha e desconfiança da esquerda que
triunfa. Dos desafios que a construção de uma hegemonia
alternativa coloca diante de nós.
Valeu a pena termos ficado, termos continuado na luta, termos
acreditado que este é o melhor espaço de luta, de
acumulação de forças, de construção
de alternativas para o Brasil. Não porque tenhamos triunfado
nas eleições . Claro que também por isso.
Porque derrotamos o grande monopólio privado da mídia,
demonstrando que é possível e indispensável
construir formas democráticas de expressão da opinião
pública, tirando-a das mãos oligopólicas
das quatro famílias que se acreditavam donas do que se
pensa no Brasil. Claro que porque derrotamos o bloco tucano-pefelista
– e de cambulhada mandamos para a aposentadoria política
a Tasso Jereissatti, a ACM, a Jorge Bornhausen, a FHC -, derrotamos
a direita.
Mas principalmente porque recuperamos a possibilidade de construir
um "outro Brasil" – caminho que parecia fechado
em meio a tanto superávit fiscal, a taxas de juros exorbitantes,
a tantas denúncias.
Recuperamos, especialmente no segundo turno, porque chamamos a
direita de direita. Dissemos um pouco das desgraças que
eles fizeram para o Brasil – finalmente abrimos o dossiê
da "herança maldita". Criminalizamos as privatizações,
possibilitando que aparecesse à superfície a condenação
majoritária dos brasileiros a um processo embelezado e
sacralizado pela mídia e pelos arautos do grande capital
privado dentro dela. Porque apelamos à mobilização
popular, porque fizemos uma campanha de esquerda no segundo turno.
Porque comparamos o governo deles com o nosso que, mesmo com todas
as suas fraquezas, mostrou-se inquestionavelmente superior ao
deles. Foi isso que triunfou. Triunfamos pelo que mudamos, não
pelo que mantivemos. Ganhamos porque nos mostramos diferentes
e não iguais a eles.
Comemoramos agora de novo, na Avenida Paulista ou em tantos outros
lugares – antes de tudo nesses milhões de casas de
beneficiários da Bolsa Família, da eletrificação
rural, dos micro-créditos, do aumento do salário
mínimo, mas principalmente os dignifica, ao se sentirem
contemplados e representados. Nessas casas onde nunca se duvidou
que este governo é melhor que todos os outros. Que nos
deram a lição da tenacidade e da resistência
contra as campanhas terroristas da mídia.
Comemoramos com o mesmo travo amargo na garganta, mas com esperança
e com mais confiança. Comemoramos o direito de ter outra
oportunidade. Comemoramos a força que conseguimos construir
e reconstruir. Comemoramos o direito de sair da política
econômica conservadora que impediu o crescimento econômico
e poderia bloquear a extensão do crescimento social –
caso perdurasse a ditadura dos "contingenciamentos"
de recursos. Comemoramos o direito de banir essa maldita expressão
– "contingenciamento" – do vocabulário
político do governo.
Comemoramos o direito a reabrirmos espaços de luta e de
esperança que nossos erros haviam ameaçado de fechar.
Comemoramos porque conseguimos nos salvar de uma derrota que teria
condenado a esquerda – e com ela, o país –
a muitos anos de novos retrocessos. Comemoramos porque bloqueamos
a possibilidade de regressões na América Latina
e seguimos nos somando aos processos de integração.
Comemoramos porque neste momento assinamos acordo com a Bolívia,
demonstrando que o caminho do diálogo e do entendimento
com os paises amigos é o caminho correto.
Não foi fácil manter a dignidade e a esperança,
mesmo durante a campanha. Mas resistimos, com dignidade, até
que triunfamos. E reconquistamos o direito à esperança.
Principalmente no segundo turno, com uma campanha de esquerda,
de reivindicar o Brasil que queremos, enunciando os inimigos de
um Brasil justo e solidário – as forças políticas,
midiática, econômicas: as elites tradicionais.
Ganhamos o direito a lutar, a lutar por um governo que finalmente
promova a prioridade do social, seja um governo posneoliberal,
trabalhe pela construção de uma democracia com alma
social.
Comemoremos, porque merecemos a vitória, apesar dos nossos
erros. Mas para estar à altura da nossa vitória,
temos que fazer dela uma vitória da esquerda. Uma vitória
que esteja à altura do emocionante apoio que o governo
recebeu, ao longo de toda a campanha, dos mais pobres, dos mais
marginalizados, dos que constituem a grande maioria dos brasileiros,
dos que trabalham mais e ganham menos. Dos que souberam, como
ninguém, resistir à enxurrada de propaganda que
a mídia despejou sobre todos. Fazer do novo governo, antes
de tudo o governo deles. De todos os brasileiros, mas sobre tudo
dos que sempre foram marginalizados, excluídos, reprimidos,
que sempre viveram e morreram sobrevivendo, no anonimato, no silêncio,
no abandono.
Comemoremos, mas juremos nunca mais deixar que o nosso governo
se desvie do caminho do desenvolvimento econômico e social,
das políticas de universalização dos direitos,
de democratização da mídia, de socialização
da política e do poder. Nunca mais aceitarmos que o nosso
governo se confunda com o governo dos outros, faça e diga
o que os outros disseram e nos legaram a "herança
maldita".
Comemoremos e retomemos a luta, em condições melhores,
por um "outro Brasil possível", que está
ao alcance de nós, do governo, do PT, da esquerda, dos
movimentos sociais, da intelectualidade crítica, das militância
política e cultural. Dessa luta depende o segundo governo
Lula, que conquistamos com muito sofrimento e tenacidade.
Soubemos dizer "Não à direita", saibamos
dizer "FHC nunca mais", saibamos construir a "prioridade
do social", saibamos derrotar a direita em todos os planos,
saibamos construir um Brasil justo, solidário, democrático
e humanista. Para voltarmos a comemorar daqui a quatro anos, sem
travos amargos, sem desconfiança, com o coração
e a mente orgulhosos do país que soubemos construir.
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