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A
mídia perdeu as eleições
Reproduzimos
excelente texto de Marcos Rolim, publicado na
Zero Hora de 12/11/2006.
Flavio Koutzii
Há
um interessante debate no país sobre a conduta da mídia
nas últimas eleições que, infelizmente, ainda
não mereceu a atenção de muitos veículos
de comunicação. Compreende-se. Certos grupos podem
oferecer destaque a qualquer assunto, por mais irrelevante que
seja, mas não julgam pertinente debater seus próprios
compromissos ou condutas. O Observatório Brasileiro de
Mídia realizou estudo sobre a posição de
14 colunistas, de cinco entre os mais importantes jornais brasileiros:
Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil
e Correio Braziliense, quanto aos quatro principais candidatos
à Presidência, apontando que o número de menções
negativas a Lula foi quase quatro vezes superior às menções
críticas para Geraldo Alckmin. Merval Pereira e Miriam
Leitão, ambos da Globo, foram os recordistas nas críticas
a Lula e, ao mesmo tempo, os que mais isentaram Alckmin. A Globo,
aliás, arquivou reportagens sobre o envolvimento de tucanos
com a máfia dos sanguessugas e só foi superada no
quesito parcialidade pela fábrica de maldades em que se
transformou a (ex) revista Veja. Alguns dos melhores jornalistas
brasileiros, como Luis Nassif e Paulo Henrique Amorim, têm
insistido nesta crítica. Nassif publicou em seu blog um
texto cujo título é "Réquiem do jornalismo";
enquanto Amorim escreveu em seu site "Conversa afiada"
artigo em que condena o que chamou de "golpe de Estado que
levou a eleição para o segundo turno".
A conduta da imprensa brasileira ao longo de toda a campanha não
considerou importante avaliar até que ponto o candidato
Alckmin, por exemplo, poderia sustentar a idéia de um "Brasil
decente". Se a ética política foi um tema central
no debate eleitoral e se Lula tinha muitas explicações
a oferecer neste ponto, tudo se passou como se Alckmin estivesse
imune às demandas por moralidade e fosse, implicitamente,
uma resposta a elas. O resultado foi que a classe média
ouviu uma história pela metade. Por isso, a interpretação
dos resultados eleitorais que deram a Lula uma votação
consagradora foram, quase que naturalmente, associados à
ignorância e ao clientelismo. O fenômeno, entretanto,
é bem mais complexo. Cito, neste particular, a opinião
do diretor do Vox Populi, Marcos Coimbra, que disse: "(...)
Ganhou o voto de quem se sentiu satisfeito com o que está
vivendo e convencido de que os pecados de Lula e do PT só
serão resolvidos quando todo o sistema político
mudar. Ganhou, portanto, um voto concreto e informado, o inverso
do que imaginam alguns analistas, que mais tendem a repetir estereótipos
que a criticá-los" (...). "Tenho acompanhado
a eleição desde muito cedo e com diversos instrumentos
de pesquisa. É, para mim, muito claro que foram os eleitores
de "classe média", de maior escolaridade e renda,
muitos vivendo em cidades grandes e modernas, os que mais tenderam
a ser 'manipulados'. Foram eles os que mais se revelaram propensos
a votar segundo a informação recebida, de maneira
acrítica e, muitas vezes, superficial. Ou seja, cada vez
que alguém se inflamava contra a ignorância dos pobres,
dirigia mal suas baterias".
Nesta discussão, não seria demais lembrar Paulo
Virilio, para quem a mídia contemporânea é
o único poder que tem a prerrogativa de editar suas próprias
leis, ao mesmo tempo em que sustenta a pretensão de não
se submeter a nenhuma outra. Tudo se passa, então, como
se a crítica à imprensa fosse, em si mesma, um "atentado
à liberdade de expressão". Algo que o filósofo
resume com uma única palavra: cinismo. A mesma conduta,
aliás, dos que hoje silenciam sobre a absurda condenação
de Emir Sader. (A propósito, os que não sabem sobre
o que ocorreu com Sader, podem encontrar informações
em http://www.cartacapital.com.br/index.php?funcao=exibirSecao&id_secao=13).
Enfim, para futuras eleições, será que a
mídia (impressa e eletrônica) adotará comportamento
verdadeiramente jornalístico, de modo a extrair dos candidatos
o sumo do que efetivamente tenham para apresentar como programa
de governo? Ou ainda estaremos, para sempre, condenados a votos
oriundos de "crenças", "simpatias",
"rancores", "assistencialismos", "promessas
vãs", "elite vs. povo", "direita vs.
esquerda" e outros clichês que mobilizam "torcedores"
e potencializam a "cegueira" de parte a parte, fazendo
da escolha verdadeiro "arrastão"?
Em nome de uma suposta (e sagrada) liberdade de expressão,
a mídia tudo podia. Por que esse princípio sacramentado
[o da liberdade de expressão] não serve também
para proteger Emir Sader do mandonismo dos "donos do poder"
(como dizia Faoro)? Eles tudo podiam em nome da tal liberdade
de expressão, ou de imprensa - como, às vezes, preferem.
A seu bel-prazer, a mídia caluniava, mentia, distorcia,
manipulava - note que me utilizo aqui do tempo pretérito,
como que a marcar o passado e sinalizar o porvir, o daqui para
frente. Também a seu bel-prazer, elegia governadores, prefeitos,
deputados, presidentes (quem não se lembra do "fenômeno"
Collor?) etc - elegia até um poste, dizia-se. Também
a seu bel-prazer cassava os mandatos de governadores, prefeitos,
deputados, presidentes (Collor, também nesse caso, nos
serve como exemplo) etc. Construía e destruía famas,
reputações. A mídia tocava a sua flauta,
e nós, os ratinhos enfeitiçados, a seguíamos
diligentes, comportados - muitas vezes, rumo a nossa própria
desgraça. Impunha-nos suas verdades. Não mais. A
grande mídia, e é essa a grande novidade, já
não mais detém o monopólio da opinião
pública. Já não nos guia em direção
ao precipício, como se cegos fôssemos.
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