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LEMBRANDO JANGO
Manifestação
do Deputado Flavio Koutzii na tribuna da Assembléia Legislativa,
no último dia 06/12/06, durante Grande Expediente em homenagem
aos 30 anos da morte do ex-Presidente João Goulart, o Jango.
Falo
em nome da bancada do Partido dos Trabalhadores. Às vezes,
há coisas que parecem coincidência, mas que naturalmente
são mais do que isso.
Este é um momento extraordinariamente oportuno, em que
essa lembrança dos 30 anos se transforma em homenagem e
iniciativa neste Parlamento. E me vou fazer entender um pouco
mais adiante.
Considero que foi muito feliz o deputado ao fazer a retrospectiva
histórica, citando algumas fontes, que, inclusive, são
clássicas na reconstrução desse período
recente – mas nem tanto – da história brasileira,
e ao dar aquilo que nem sempre é fácil dar: os significados
mais fundamentais. Digo isso porque a homenagem, às vezes,
derrapa um pouco para o elogio ao homem ou à mulher que
se homenageia; dele ou dela como indivíduo.
Todas as palavras aqui foram justas e oportunas, mas há
uma situação que a torna similar com a trajetória
de João Goulart. Refiro-me a uma época extraordinariamente
importante da história deste País, na qual se tentou
modificações essenciais. Trata-se de uma época
em que a tentativa de mudar foi bloqueada e impedida com um golpe
militar, assim como já havia acontecido com o cerco a Getúlio
Vargas em 1954. Dez anos separam o suicídio e o golpe,
10 anos marcados por uma tentativa extraordinariamente importante
do País de retomar o seu destino e começar a construir
outro projeto.
Nesta homenagem, ressaltamos não só a memória
da perda de João Goulart, mas até mesmo a memória
dele como ser humano e da sua tristeza, dele como audacioso político
que combinava as características de certa discrição
e sobriedade com certo atrevimento ao estabelecer metas extremamente
importantes para o País. Ele morreu depois, mas, quando
foi retirado do poder por um golpe militar, anticonstitucional
por definição, por uma violência militar inaceitável,
mudou o curso da história do Brasil.
Essa é também a lembrança de outra tristeza,
de outra possibilidade, de outro caminho que não aconteceu.
Não temos como saber, caso ele houvesse se materializado,
como seria o País. Se essas reformas fossem permitidas,
qual seria a situação que teríamos hoje.
E não se está a fazer ficção histórica
– obviamente, não me proponho a isso –, mas,
sim, a reconhecer, porque é da história e da vida,
tanto dos adversários de Jango quanto de seus correligionários
e do povo brasileiro, que depositou naquele período grandes
expectativas, que se trata de um processo interrompido pela violência
e pelo arbítrio.
Era isto que queria dizer, que esta homenagem vem com certa sintonia
de coincidências e com uma oportunidade maior talvez do
que muitas vezes, pois é disso que continua tratando o
desafio que temos para o nosso País.
Teremos posições mais próximas ou mais divergentes,
mas é no mesmo campo que acaba de se manifestar o povo
brasileiro, que, frente a uma série de problemas, escolheu
tentar uma segunda oportunidade num caminho de mudanças
importantes para o nosso País. Oxalá isso seja possível.
Mais do que nunca, o nome de João Goulart e o período
histórico referido devem ser lembrados, não como
um passado que está indo para um museu, mas como um passado
que materializa conteúdos, propostas, ambições
e objetivos para a sociedade brasileira que são absolutamente
atuais, absolutamente presentes e que estão na ordem do
dia.
Por meio de um e-mail, uma companheira me chamava a atenção
para o fato de que a nova turma de cadetes da Escola Militar,
de aspirantes a oficiais, escolheu, como paraninfo para 2006,
Garrastazu Médici. Há pouco, o coronel Brilhante
Ustra fez o lançamento da sua versão, na qual tenta
justificar o injustificável e a sua prática de torturas,
e foi circundado por 200 altos oficiais desta região e
outros tantos do centro do País.
Sempre fui extremamente respeitador, e os colegas sabem disso.
Quando se faz uma homenagem, deixa-se a polêmica ou a divergência
para outros momentos, que as temos tantos nesta Casa.
Minha maneira de saudar a iniciativa e, sobretudo, de reverenciar
João Goulart é manifestar, em meu nome e em nome
da minha bancada, uma absoluta repulsa a fatos como os que referi
há pouco, porque ou a história tem sentido e é
assimilada por nosso povo e nossa gente, ou não significa
nada. Somos dos que acham que ela significa muito e tudo.
Das duas, uma: ou Jango tinha razão, ou Médici tinha
razão.
Tenho certeza absoluta de que Jango é quem estava certo,
pois escolheu o caminho da democracia e lutou contra o arbítrio.
Por isso, reverenciá-lo é lembrar mais uma vez que
a razão de ser da nossa atividade política é
a busca da democracia, do desenvolvimento, do progresso e da liberdade
para a nossa gente. Obrigado.
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