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Hoje o texto é
mais longo. Trata-se do Grande Expediente que marcou minha despedida
do parlamento gaúcho *
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Grande Expediente realizado em 12/12/2006.
Estamos
em 12 de dezembro, e no próximo dia 21 termina esta legislatura,
quer dizer, esses quatro anos em que trabalhamos como deputados
eleitos pelo povo do Rio Grande do Sul.
No que me toca, trata-se, de alguma forma, de uma despedida. Na
verdade, é uma espécie de longo adeus para uma experiência
e um privilégio que me foram concedidos nestes quatro mandatos
sucessivos. Portanto, são 16 anos. Antes desse período,
fui por dois anos coordenador da primeira bancada do Partido dos
Trabalhadores que chegou a esta Casa, no início de 1987.
São, portanto, quase 20 anos, um terço da minha
vida.
Foi uma imensa experiência, um enorme aprendizado, com muitas
realizações e importantes decepções.
Após todo esse tempo, tenho a honra de sair daqui –
e, permitam-me a presunção, talvez seja esta a grande
condecoração que levamos daqui, uma Casa plural,
uma Casa de todos os partidos, portanto um lugar de todos os pensamentos
e ideologias – respeitado e considerado por todos os colegas.
Num primeiro momento, queria me dirigir à bancada que tenho
a honra de ter liderado nos últimos dois anos, não
por formalidade, visto que não teria nenhuma importância
se assim fosse, mas porque isso me parece ser o mais importante.
Tenho entre meus amigos e companheiros o deputado Adão
Villaverde, com seu talento, sua capacidade de iniciativa, seu
humor, sua ironia. Graças à nossa velha camaradagem,
mesmo nossas diferenças não nos separam quando temos
de agir juntos e alcançar nossos objetivos. Temos jogado
em dupla por muito tempo, especialmente nesses últimos
dois anos.
Saúdo o deputado Dionilso Marcon, um deputado que vem do
Movimento dos Sem-Terra, de extrema entrega às razões
pelas quais mereceu a confiança da sua gente, do seu povo
e da luta daqueles que têm as maiores dificuldades no campo.
Dirijo-me ao deputado Edson Portilho, que não se elegeu
desta vez, mas que por oito anos aqui representou as lutas da
educação, da questão negra, da fusão
de um Brasil que é toda a sua multiplicidade, todos os
seus credos, todas as suas alegrias e todas as suas culturas.
A bancada é também do deputado Elvino Bohn Gass,
na minha opinião uma extrema e aguda inteligência,
uma grande capacidade de organização, alguém
extremamente preparado para defender aqueles a quem representa,
que hoje já são muitos, mas são principalmente
os pequenos e médios agricultores.
Saúdo o deputado Estilac Xavier, líder do governo
Lula neste ano, ao lado de quem tive a honra, o prazer e a gratificação
de sentar-me, nós, os dois líderes, durante todo
este ano. Pude constatar, ao longo de todo esse período,
a sua extrema capacidade, a sua exemplar disciplina, a sua aguda
inteligência, o seu gosto pelo humor e pela ironia e a sua
capacidade de crescer e produzir.
Tanto os deputados Estilac Xavier como Edson Portilho farão
falta, mas continuarão, como sempre estiveram em suas vidas,
desde jovens, profundamente, ainda e sempre, junto às lutas
que os constituíram como referências na política
deste Estado.
Dirijo-me ao jovem deputado Fabiano Pereira, com quem, na semana
passada, no Bar do Beto, varei a madrugada conversando sobre os
amigos, sobre os nossos sonhos, sobre alguns dos nossos desencontros
e até mesmo sobre uma perda amorosa e as novas possibilidades
que a vida dará a alguém tão jovem e tão
talentoso como ele.
A bancada do Partido dos Trabalhadores é também
do deputado Frei Sérgio, outro parlamentar que chegou a
esta Casa pela luta dos movimentos da terra, fez-se respeitar
pela sua extraordinária seriedade, por uma grande capacidade
intelectual e por ter trazido para nós – não
foi o único a tratar do assunto, mas foi talvez o mais
enfático – o tema dos biocombustíveis e todas
as questões que mostram como este País pode ter
um papel protagonista num mundo que vive uma enorme crise de energia.
Frei Sérgio qualificou o seu trabalho não apenas
por nos dizer e explicar o papel do biocombustível –
o fato de que ele é renovável, que depende da atividade
agrícola e a certeza de que a atividade agrícola
garante trabalho –, mas, sobretudo, por saber, daquele seu
jeito militante e incansável, explanar o assunto ao pequeno
e médio agricultor. Assegurou a eles que poderiam ter uma
orientação com relação ao que plantassem
e que isso teria e criaria um grande espaço, especialmente
se não vendessem a terra, se permanecessem como proprietários
e se, ao contrário do que aconteceu na experiência
do combustível que depende da cana-de-açúcar,
não construíssemos grandes conglomerados, inclusive
internacionais, mas grandes oportunidades para nós e para
os agricultores da nossa terra.
A nossa bancada é a bancada do deputado Ivar Pavan, que
já foi líder e que tem, com a sua capacidade de
aglutinar e com a serenidade do seu pensamento, ajudado a constituir
isto que é um time, que é uma equipe. Somos 13,
mas somos, talvez, mais do que os 13 porque trabalhamos com muita
identidade, sendo todos uma personalidade diferente da outra,
uma ênfase diferente da outra, um olhar político
diferenciado no campo da esquerda a que pertencemos.
Esta é a bancada do deputado Luis Fernando Schmidt, grande
amigo, parceiro e confidente, excelente parlamentar. Atrevo-me
a dizer que, mesmo que as eleições não lhe
tenham dado retorno dessa vez – mais adiante darão
–, esses foram os seus melhores quatro anos, se a minha
observação vale alguma coisa e se o meu respeito
pelo trabalho de cada um é um bom guia para saber julgar.
Esta é a bancada da deputada Miriam Marroni, grande Miriam
Marroni, que esteve só dois anos aqui, dois anos intensos
que parecem toda a legislatura, com grande capacidade de iniciativa,
permanente mobilização e indignação.
Deputada Miriam Marroni, foi um prazer imenso e uma honra enorme
ter partilhado com V. Exa. esses tempos que foram difíceis,
mas que acabaram sendo gratos.
Esta é a bancada do deputado Raul Pont, o Raul dessa longa
e profunda história, dessa capacidade extraordinária,
um líder de muita qualidade, de enorme influência
para nós, uma referência em todos os momentos.
Esta é também a bancada do deputado Ronaldo Zülke.
É a bancada de um quadro político oriundo do magistério,
que soube se construir com cada vez mais abrangência temática
e é também para nós uma referência.
Somos 13 e somos um grupo muito importante. Achei que deveria
voltar a isso porque este é o sentido que tem para mim
haver estado aqui. Refiro-me à idéia que é
dos nossos pioneirismos e dos nossos começos, a idéia
de um grupo solidário, a idéia de uma substância
política comum, de paradigmas de conduta exigentes, éticos
e partilhados, a idéia de que nos somamos e não
nos dividimos, a idéia de que podemos nos construir cada
um e cada uma sem necessidade de destruir a nenhum e a nenhuma.
Este, para mim, de tudo o que aprendi, é o segredo mais
importante. E é o que peço a todos, nisso que começa
a ser não uma despedida para sempre, mas uma despedida
daqui.
Ter confiança e ser leal, além de ser uma virtude
humana e ética primordial, é a coisa mais eficaz
que existe em política. Quando tenho certeza de que os
meus estão comigo e eu com eles, tenho certeza de quanta
força temos e de que com força e conteúdo
podemos intervir. O nosso crescimento, hoje como um grande partido
nacional - começou tão pequeno, tão acossado,
tão difícil, tão minoritário - e chegou
hoje a governar este País com seus acertos e erros. Chegamos
onde chegamos porque éramos assim, não somente no
começo, mas por muito tempo. Jogávamos juntos, fazíamos
e enfrentávamos nossas metas em comum.
E é isso que desejo ardentemente a todos. Se algum valor
e alguma qualidade tenho, terá sido talvez a de ajudar
a somar o melhor de cada um e não de dividir o pior de
cada um. Isso é uma gigantesca força, deu para ver
na história do Brasil.
Queria lembrar que nossa bancada, homenageando-a, nesta legislatura
fez 5.222 pronunciamentos, 54% do total de pronunciamentos realizados
nesta Casa, e apresentou 171 proposições, o que
significa que somos a segunda bancada que mais projetos apresentou.
Para nosso enorme orgulho e indisfarçável ironia,
sem paranóia, tenho em mãos uma tabela – não
lembro as datas de memória, embora conheça os assuntos
– com importantes proposições da nossa bancada.
Em 1987, propusemos a tribuna popular, que, entretanto, só
foi aceita em 2003, por meio de uma proposta da Mesa; em 1990,
a Assembléia, a partir de uma insistência nossa,
extinguiu a aposentadoria dos deputados e, lá em 2004,
por uma decisão do governador, extinguiu-se o Fundo Estadual
de Previdência Parlamentar – Feppa –, que acumulava,
naquela época, 57 milhões de reais.
Propusemos também a audiência popular, em 1991, que
veio a ser aprovada em 2003, quando o projeto foi apresentado
por outro partido; e o fim das doações e auxílios,
em 1993, somente foi aprovado em 2005.
Acabamos, em conjunto com os outros deputados, sempre por maioria,
com o pagamento pelas convocações extraordinárias.
Esse era um projeto nosso, de 1995, que foi aprovado 10 anos depois.
Em 1999, propusemos a plenária dos estudantes, que foi
aprovada no mesmo ano; em 2001, o fim das votações
secretas, medida aprovada recentemente e, finalmente, em 2004,
políticas de transparência na Casa, que foram aprovadas
em 2005.
O que quero dizer com isso é que nos honra muito, mesmo
como minoria – e às vezes éramos muito menos
do que 13 deputados –, termos conseguido ajudar a Casa a
direcionar-se, a ser cada vez mais sóbria e criteriosa
com o uso do recurso público e invulnerável àquilo
que tem desgastado toda a esfera da ação pública.
Não tivemos sorte. Nenhuma das nossas 10 propostas foi
aprovada. Elas foram sabiamente, depois de uma longa reflexão,
geralmente depois de alguns anos, aprovadas pela Casa na sua infinita
sabedoria e justa decisão, mas com um certo egoísmo,
porque nenhuma foi assinada por um deputado nosso – até
há pouco nem a presidência tínhamos, mas agora
a teremos.
Gostaria de lembrar uma música do Paulinho da Viola e do
Hermínio Bello de Carvalho, Timoneiro, na qual, com aquele
velho e delicado talento, dizem: Não sou eu quem me navega,
quem me navega é o mar; não sou eu quem me navega,
quem me navega é o mar.
Nós somos daqueles que, contrariando o Paulinho da Viola,
querem timonear, por mais bravo que seja o mar.
Neste momento e nesta espécie de despedida, diria que somos
daquela raça que não acabou, que estará aqui
nos próximos 30 anos e em todos os outros anos que virão,
porque os nossos ossos são feitos dos gemidos do nosso
povo, porque a nossa carne é feita dos nossos melhores
amores, porque os nossos olhos são olhos de amanhecer e
são olhos de chorar orvalhos, porque os nossos braços
e as nossas pernas são de abrir caminhos.
Temos de comemorar algo que é próprio de ser dito
neste dia, sem arrogância e com sobriedade: hoje é
12 de dezembro, e devemos comemorar a vitória que tivemos
no início e no final de outubro.
Por que devemos comemorar? Porque tivemos uma vitória eleitoral,
elegendo o presidente da República e mantendo mais ou menos
íntegras as nossas bancadas, depois de toda a imensa crise
que sofremos, pela qual somos responsáveis. Conseguimos
inclusive a possibilidade de governar cinco Estados brasileiros,
especialmente por ser novidade e pelo significado e importância,
o Pará e a Bahia.
Tivemos uma vitória política também, porque,
na verdade, tratou-se da confrontação de dois projetos
diferentes, especialmente no segundo turno. Foi isso que ficou
marcado e foi isso que o povo escolheu.
A nossa vitória também tem outra característica:
com toda a autoridade que temos, decorrente das lutas que travamos
para redemocratizar este País, não confundimos a
liberdade de imprensa, que defenderemos até a morte, com
a paralisia de nossos cérebros nem de nosso espírito
crítico. Sim, houve neste País uma ofensiva sincronizada,
extraordinariamente potente e pesada para liquidar com o PT e
com o governo Lula, mas a mídia não conseguiu.
Tivemos uma vitória, sim, porque o povo nos deu quase 60
milhões de votos e – para usar um termo de que gosto
muito e que está presente na literatura e no cinema –
uma segunda oportunidade. O tema da segunda chance foi retomado
pelo presidente Lula em recente discurso, quando disse saber que
o povo brasileiro lhe dera uma nova oportunidade e que saberá
honrar e cumprir com essa nova possibilidade.
Para concluir, gostaria de dizer que dessas lições
e dessa vitória nasce um enorme compromisso. Sou obrigado
a dizer, porque faz parte da minha última fala. Coloco
a minha mão na madeira desta tribuna não como das
outras vezes, pois não é tão simples. Parece
ser um gesto banal, porque já estive tantas vezes aqui,
mas, na hora de ir embora, a sensação é muito
especial e a vontade de deixar algumas coisas claras é
imprescindível e determinante.
Temos, com base nessas lições e nessas possibilidades,
de comemorar com sobriedade e saber que é preciso voltar
a ser crítico dentro do partido, a ser exigente com o governo,
a pensar estrategicamente e a unificar nossas forças. Estamos
aqui para comemorar a vitória eleitoral não de um
partido que tem um grande passado pela frente – frase de
efeito de um crítico nacional –, mas de um partido
que ainda quer falar e pensar sobre o grande futuro que tem pela
frente.
Termino fazendo um agradecimento a todos os companheiros e companheiras
que trabalham nesta Casa, ao pessoal de todos os setores. Sem
eles as coisas não caminhariam, como também não
caminhariam sem os nossos assessores, que nos possibilitam intervir
com precisão, conhecimento e capacidade de sinalizar.
De uma forma delicada e um pouco poética – essa é
a maneira com que sempre gostaria de fazer meus pronunciamentos,
mas me falta o dom e o talento –, quero homenagear o pessoal
da Taquigrafia. Quero dedicar-me especialmente às senhoras
da equipe, por uma seletividade que me assiste. Nesse tempo em
que estive sentado e atento, observando-as trabalhar, me dei conta
de que elas têm uma maneira de ver sem olhar, essa ciência
de estar como se não estivessem, esses gestos medidos,
essa elegância que se esfinge e se misteriza.
O Sr. Edson Brum (PMDB) – Em nome da bancada do PMDB, trago
as nossas homenagens a V. Exa., deputado Flávio Koutzii.
São 16 anos, quase uma vida aqui no Parlamento, de honradez
e tenacidade na busca da defesa dos seus ideais. Muitas vezes
estivemos em lados opostos, divergimos, mas, acima de tudo, mantivemos
muito respeito.
Estou nesta Casa há 1 ano e 11 meses. Iniciei minha carreira
política na militância partidária, assim como
V. Exa., e tenho orgulho de poder dizer aos meus companheiros
de partido que estive aqui ao seu lado, num certo momento, participando
das discussões, na busca de decisões importantes
para o nosso Rio Grande do Sul.
V.
Exa. sairá daqui com a consciência tranqüila,
pois fez tudo aquilo que podia fazer, conquistando, acima de tudo,
o respeito de todos nós.
Parabéns pelos 16 anos nesta Casa! Desejamos a V. Exa.
sucesso na nova empreitada, na nova vida, naquilo que realizar
daqui para a frente. Receba as homenagens de todo o PMDB. Muito
obrigado.
A
Sra. Jussara Cony (PC do B) – Deputado Flávio Koutzii,
companheiro e amigo, entramos juntos nesta Casa, há 16
anos, e não é por acaso que daqui sairemos juntos,
não pela vontade do povo do Rio Grande, mas porque, como
sempre, no decorrer das nossas vidas, por decisões individuais
respaldadas pelo coletivo, assumimos outras tarefas.
Entramos juntos e sairemos juntos.
O companheiro Flávio Koutzii homenageou a sua bancada,
e penso que fez muito bem, pelo papel histórico, nesta
Casa, da bancada do Partido dos Trabalhadores, que aqui tem 20
anos.
Quero confessar agora que durante a minha convivência com
todas as bancadas e, de forma muito particular, com a bancada
do Partido dos Trabalhadores – e me perdoem os que vieram
antes e os que vierem depois, pedindo licença à
Miriam Marroni e à Maria Celeste – tive três
amores: um amor pagão, pelos nossos imensos carnavais e
por todos os nossos axés, o Edson Portilho; um amor cristão,
pelas lutas dos homens e das mulheres do campo – sintetizadas
há bem pouco tempo, por ocasião dos 250 anos da
morte de Sepé Tiaraju, herói do povo guarani –,
o Frei Sérgio; e um amor que não posso dizer que
seja hors-concours, porque levarei um puxão de orelhas
de Aldo Rebelo, autor da lei referente à língua
portuguesa, mas um amor acima de qualquer dúvida, o Flávio
Koutzii.
Esse amor é pela luta, pelos princípios, pela firmeza
ideológica e pela história que é exemplo
para a nossa geração, para as gerações
de hoje e para as gerações de amanhã, que
queremos libertárias, cada vez mais.
É com poesia que quero finalizar a homenagem não
apenas da deputada e companheira Jussara Cony, mas do Partido
Comunista do Brasil e, acredito, de todos os movimentos sociais,
de todos aqueles homens e mulheres que, em grande parte de suas
lutas e nos momentos históricos, tiveram no deputado Flávio
Koutzii uma referência nas suas vidas, não apenas
quando resistiu e foi para o exílio, mas quando voltou
e lutou pela anistia.
Nada melhor do que um poema de Fernando Pessoa para homenagear
V. Exa.: Com sensíveis movimentos da esperança e
da vontade, buscar na linha do horizonte a árvore, a praia,
a flor, a fonte, os beijos merecidos da verdade! Essa verdade
é a de uma nova sociedade.
Não custa lembrar, para finalizar, Milton Nascimento e
Fernando Brandt: Se muito vale o já feito, mais vale o
que será.
Companheiro e camarada Flávio Koutzii, boa luta! Muito
obrigada.
O Sr. Jair Soares (PP) – Honra-me, neste momento, caro colega
e amigo, falar em nome da minha bancada, de modo especial em nome
do líder da bancada, deputado Marcos Peixoto, que aprendeu
a conhecer V. Exa. desde os idos de 1991, no século passado.
A mim sempre me agrada, nobre deputado, vir a este microfone e
apartear aqueles que assomam à tribuna, mas hoje é
um dia muito especial. Esse prazer é aumentado, porque
pude, ao longo deste mandato, apreciar a conduta, o modo de ser
de V. Exa. no campo da vida pública: a impessoalidade,
a moralidade, a eficiência e o comportamento ético
e político como titular da Comissão de Finanças,
Planejamento, Fiscalização e Controle e da Comissão
de Ética Parlamentar desta Casa e nos pareceres que foi
forçado a emitir pelas contingências de ofício
daqueles que nelas atuam.
Ao longo desse período, compreendi a trajetória
de V. Exa. por esses caminhos do mundo, a vida sofrida que a política
lhe deu. Esse é o preço pago, deputado Flávio
Koutzii, por aqueles que trilham a vida pública, que não
se constitui apenas em momentos fugazes de felicidade, mas em
um caminho cheio de pedras que vão sendo ultrapassadas
uma a uma pelos homens de bem.
O filósofo e cientista político francês La
Fontaine dizia que o homem, o ser humano, tem três dentro
de si: o que ele pensa que é; o que os outros pensam que
ele é; e o que realmente ele é. Esse é o
homem Flávio Koutzii, que sai daqui de cabeça erguida.
Tenho absoluta certeza de que fez amigos – entre os quais
me incluo – pelo seu comportamento, por sua lucidez, por
sua serenidade e por aquilo que realmente representou ao longo
dessas quatro legislaturas.
Honra-me sobremaneira, neste momento, como homem público
e como político, homenageá-lo nesta que não
é a despedida daqueles que labutam na vida pública,
pois certamente V. Exa. terá outras missões importantes
pela frente.
Agradeço a Deus por esta oportunidade. Deputado Flávio
Koutzii, saiba que, no meu coração, V. Exa. terá
sempre a amizade profunda que os anos nos concederam.
O Sr. Kalil Sehbe (PDT) – Deputado e amigo Flávio
Koutzii, falo aqui não apenas em meu nome, mas em nome
de toda a bancada do Partido Democrático Trabalhista –
PDT.
Tive a honra de conviver com V. Exa. ao longo de três mandatos.
Em um deles, encontrava-me na secretaria, e, em outro, V. Exa.
chefiava a Casa Civil.
Posso dizer que, ao longo desse tempo, nunca esta Casa deixou
de receber de V. Exa. uma resposta criteriosa e positiva; uma
resposta pensada, sem ansiedade.
Esta não é uma despedida, mas um até breve,
porque pessoas de bem, que têm convicções,
não podem se afastar da política. O Brasil está
precisando de pensadores, de homens convictos, com grande idealismo
e, principalmente, com lealdade.
Lembro-me das conversações mantidas com V. Exa.,
deputado Flávio Koutzii, na Casa Civil. V. Exa. tinha critérios
para ponderar, argumentar e dar liberdade a quem iria exercer
o direito de voto neste plenário. V. Exa. sempre manteve
um relacionamento fraterno com todos.
Suas histórias do tempo em que esteve afastado do País
marcaram-me, com elas muito aprendi. Como é bom termos
juventude – quando cheguei a esta Casa era um dos deputados
mais jovens da legislatura – e podermos conversar com pessoas
experientes, para crescer, amadurecer e entender muitos aspectos.
Uma das pessoas que sempre terei como referência de lealdade
e de postura será V. Exa.
Lembro-me do ex-deputado Bernardo de Souza e de tantos colegas
que aqui vieram transmitir ensinamentos. V. Exa., deputado Flávio
Koutzii, faz parte desse grupo.
Receba esse reconhecimento não apenas em meu nome, mas
em nome do meu partido, que sabe distinguir homens de bem e leais
como V. Exa.
Faço um apelo para que este seja um até breve. Há
muitas missões pela frente nas quais o Brasil precisa de
pessoas como V. Exa. Muito obrigado.
O Sr. Marquinho Lang (PFL) – Deputado Flávio Koutzii,
faço este aparte em nome dos meus colegas da bancada do
PFL, deputados José Sperotto e Reginaldo Pujol, e da bancada
do PSDB, deputados Paulo Brum, Ruy Pauletti e Adilson Troca.
Como deputado desta Casa há 1 ano e 11 meses, quero fazer
a seguinte referência ao livro Pedaços de Morte no
Coração – O depoimento de um brasileiro que
passou quatro anos no inferno das prisões políticas
da Argentina, de Flávio Koutzii:
Ao finalizar quero fazer um registro pessoal.
Em primeiro lugar, à minha mãe,
que, nos anos difíceis, teve que enfrentar
o frio antártico das filas das prisões,
a solidão dos quartos de hotel
para poder me ver quinze minutos
a cada quinze dias
e as ameaças invisíveis e sempre presentes.
Mas o importante é que hoje
estou muito feliz,
indisfarçavelmente,
por tudo o que a vida me deu: a chance
de voltar a respirar o ar
orvalhado da liberdade;
a possibilidade de sobreviver
e de renovar meus caminhos políticos,
a surpresa de ter vivido
muito mais intensamente
do que meu temperamento anunciava,
de ter podido ser um aventureiro tímido
e não um burocrata audaz;
de ter renovado as oportunidades
de amar e ser amado.
Por isso, no dia de hoje, sou um homem feliz e grato.
Peço perdão aos mortos de minha felicidade
e ao sofrimento do nosso povo.
Eu prometo continuar.
Discurso proferido no dia 26 de março de 1992, durante
o recebimento do Prêmio Springer como Destaque Político
do ano de 1991, na Assembléia Legislativa.
Fico com as palavras de V. Exa. e não com as minhas. Tenho
certeza de que é um até breve, um até mais
ver, pois o deputado Flávio Koutzii, o homem, o cidadão,
não deixará de continuar a sua luta por todos nós.
O Sr. Berfran Rosado (PPS) – Deputado Flávio Koutzii,
ao cumprimentá-lo, manifesto o meu respeito e a minha admiração
pelo seu trabalho, na condição de quem muitas vezes
com V. Exa. debateu.
Por opiniões divergentes, em várias oportunidades,
confrontamo-nos, mas, de minha parte, sempre ficou a certeza de
que estávamos fazendo o bom debate político, no
mais alto nível, no enfrentamento de idéias e não
limitados ao espaço pessoal de cada um.
Não sou dado a elogio fácil e muito menos a fazê-lo
nesta circunstância. Deputado Flávio Koutzii, ao
manifestar o meu respeito e a minha admiração pelo
trabalho desenvolvido por V. Exa. nesta Assembléia Legislativa
ao longo desses 16 anos, ressalto o fato de ele ser reconhecido
e respeitado não só pelos seus colegas, seus aliados
e seus adversários políticos, mas também
pela sociedade, tanto pelos que o apóiam como também
pelos que discordam de suas posições. Ser respeitado
por todos é um feito importante, que foi indiscutivelmente
conquistado por V. Exa. e que talvez seja o principal resultado
de sua atividade política ao longo desse tempo.
Enfatizo ainda a importância da sua atuação
política fora deste Parlamento, independentemente da vida
parlamentar, não somente na construção do
Partido dos Trabalhadores, mas na defesa de posições
políticas importantes para o processo democrático,
para a construção da cidadania, para o equilíbrio
político e para os avanços e as conquistas da sociedade.
Por isso, em nome da bancada do PPS e em meu nome, desejo votos
de sucesso. Tenho certeza de que, onde V. Exa. estiver, desempenhará
suas funções e atividades políticas com a
mesma bravura, coerência, persistência, dedicação
e dignidade com que as tem realizado até aqui.
Parabéns, deputado.
O Sr. Sérgio Peres (PTB) – Primeiramente, deputado
e colega Flávio Koutzii, quero dizer que não poderia
deixar de fazer parte desta homenagem.
Durante o pouco tempo em que convivi com V. Exa. nesta Casa, presenciei
atitudes suas que muito me marcaram. Uma delas, no ano passado,
foi durante a votação de um projeto para o qual
a bancada do PT havia garantido apoio ao governo. No momento da
discussão, a sessão foi suspensa – quem a
estava presidindo era o deputado Fernando Záchia, líder
do governo –, pois houve um desentendimento. No entanto,
V. Exa. afirmou que o que havia sido combinado seria respeitado.
Inclusive, na ocasião, comentei com colegas que o deputado
era um homem de palavra. Essa situação marcou-me
e fez com que o admirasse muito por sua atitude de mostrar que
a palavra de um homem tem de ser respeitada. E todos o ouviram.
Conhecia parte da sua história e, na Assembléia
Legislativa, tive a oportunidade de acompanhar o seu mandato.
V. Exa. não usou da tribuna muitas vezes, mas, quando a
usava, eu ficava atento lhe ouvindo. Quando V. Exa fala, sinto
que é da alma, fazendo-me refletir sobre o assunto.
V. Exa. é um homem que fala com consciência e não
usa da tribuna apenas para a imprensa, mas para defender teses.
E quando as defende o faz com muita firmeza.
Tenho certeza de que a sua saída desta Casa vai deixar
saudade nos que ficam, já que também estarei me
despedindo deste Parlamento, pois não concorri à
reeleição.
Estou certo de que V. Exa. fará muitos discípulos.
A perda do plenário com a sua saída desta Casa será
compensada com o ganho que V. Exa. trará ao formar pessoas,
preparar políticos. Se não retornar brevemente a
esta Casa, alguém preparado por V. Exa. o representará.
Em nome do PTB, parabenizo-o e reafirmo o respeito que temos pelo
colega deputado, por suas posições, sua política,
sua ética e seu caráter.
Foi um prazer tê-lo conhecido e ter tido a oportunidade
de assistir suas manifestações, que só engrandecem
o Parlamento.
O Sr. Heitor Schuch (PSB) – Deputado Flávio Koutzii,
em nome da bancada do Partido Socialista Brasileiro, quero trazer
também os nossos cumprimentos a V. Exa. pela trajetória
de 16 anos nesta Casa: nas comissões, no conselho de líderes,
neste plenário, enfim, em todos os setores do Parlamento
gaúcho.
Quero dizer a V. Exa. que já estamos com saudade, porque
16 anos não são 16 dias. E, nesse período,
muitas vezes V. Exa. deu exemplos de que os acontecimentos poderiam
ser diferentes. Às vezes, compreendido; outras, não.
Mas, com o passar do tempo, as pessoas foram se convencendo de
que o que foi dito lá atrás, efetivamente, poderia
ser diferente.
Vimos aqui para dizer a V. Exa. que, às vezes, um gesto
vale muito mais do que milhares e milhares de palavras. A imagem
que V. Exa. deixa para mim é a da sua calma e tranqüilidade,
é a do seu jeito de abordar as questões sem se assustar
com elas. Tanto na vida como no Parlamento, V. Exa. espera amadurecer
a opinião para, então, tomar as decisões
corretas.
Parabéns pela sua coerência e simplicidade, pela
valorização das pequenas coisas, pela sabedoria
e pelos critérios que V. Exa. trouxe a esta Casa e que
aqui ficaram registrados.
Fico convencido de que, depois de tudo o que V. Exa. semeou por
aqui, muitos frutos ainda colheremos. Estou convicto de que a
luta vale a pena quando se luta com vontade e determinação.
Sua despedida desta Casa, deputado Flávio Koutzzi, é
marcada por algo que, para V. Exa., sempre foi um desafio: recomeçar.
Portanto, desejamos-lhe um ótimo recomeço. Parabéns!
O Sr. Raul Pont (PT) – Companheiro Flávio Koutzii,
quero, em meu nome e em nome da bancada e da nossa assessoria,
da qual também o companheiro fez parte, cumprimentá-lo
e, para não perder a tradição, dizer que
discordamos do seu longo adeus, pois esperamos tê-lo ao
nosso lado, seja militando no partido ou no governo, seja desenvolvendo
qualquer outra atividade profissional futura, mas, sem nenhuma
dúvida, sempre engajado na luta política.
Talvez este deputado seja, dos companheiros da bancada, o que
mais longa vida comum tem com o companheiro. Afinal, lá
se vão 42 anos, da época em que nós, no Centro
Acadêmico Franklin Delano Roosevelt, começamos o
nosso enfrentamento com a ditadura militar – era março
de 1964.
Às vezes distantes fisicamente, outras vezes com projetos
não totalmente identificados, nunca tivemos dificuldade
de estabelecer lado, de defender o que pensávamos e o que
queríamos.
Por essa longa experiência comum, posso dizer que conheço
um outro aspecto do deputado Flávio Koutzii que não
somente o do dirigente político e nosso sempre dirigente
partidário, capaz de ter propostas alternativas nos momentos
mais difíceis. Conheço também o Flávio
filósofo de 1964 e o economista com quem partilhei a amizade
e longos anos de estudo – quase sempre inacabados –
na Faculdade de Economia da UFRGS.
Creio que poucos saibam que o Flávio se dedicou a um ramo
muito próspero durante a ditadura, abrindo uma livraria,
em plena Avenida João Pessoa, para vender livros de oposição,
livros de esquerda. Isso, em termos, era uma contradição,
pois estávamos em pleno Regime Militar, mas também
ali, com a firmeza de quem sabe nadar contra a correnteza, certamente
cumpriu o seu papel.
Muitas vezes após termo-nos encontrado na luta clandestina,
na resistência ao regime militar, coexistimos com codinomes,
pontos de encontro e uma vida que muitas vezes nos afastava do
convívio social, mas sempre conseguimos manter, no Brasil
e no exterior, uma relação política fecunda
e enriquecedora.
Quem ficou no Brasil durante o período mais difícil
da ditadura – refiro-me a um grupo significativo de gaúchos
e companheiros de outros Estados – tinha como referência
o que o Flávio fazia lá fora, descontado, evidentemente,
o período que o deputado Marquinho Lang comentou aqui,
que foi o da longa prisão na Argentina.
Nos momentos mais difíceis, era importante saber que o
Flávio e outros companheiros também estavam lutando,
também estavam resistindo, também estavam conseguindo
manter algum grau de produção teórica. Para
nós, era importante ter uma visão de fora, pois
isso nos orientava quanto ao que procurávamos manter aqui
no Brasil.
Essa trajetória, que depois se reencontrou no PT e nesta
bancada nos quase 20 anos de Assembléia Legislativa, faz-nos
reconhecer o teu trabalho como extremamente meritório e
ímpar dentro do partido.
É claro que momentos como este, sempre muito formais, não
podem obscurecer as relações de amizade e fraternidade
que construímos ao longo desse período. Quantas
vezes ficamos horas e horas discutindo cinema e outras manifestações
de cultura, como referiste no recente encontro com o Fabiano?
Essas coisas fazem parte da vida!
Como não lembrar que, nos anos 60, tínhamos um vigoroso
atacante, um ponta-direita que, teoricamente, sabia tudo sobre
a função de um ponta-direita? Às vezes, a
prática não ajudava muito, mas não podemos
esquecer das tardes e tardes de sábado que passamos lá
no Veludo, em Belém Novo, onde disputadíssimos torneios
futebolísticos eram realizados durante os intervalos das
nossas disputas com a ditadura militar.
É isso, Flávio. Temos certeza de que esta vida e
esta relação que todos reconhecemos no teu trabalho
continuará daqui para a frente.
Todos sabemos que este é um espaço temporário,
limitado – entramos aqui já com essa visão.
Por isso, a nossa luta prosseguirá na produção
intelectual, na atividade sindical ou em qualquer outro trabalho
em que nos envolvermos, e tenho certeza de que continuaremos contando
contigo enquanto estiveres cumprindo o teu importante papel na
direção nacional do partido.
Certamente o teu mandato prosseguirá na direção
nacional do partido, e queremos continuar contando com a tua opinião
judiciosa, com a tua capacidade de refletir nos momentos mais
difíceis, para fazer com que os nossos passos sejam sempre
mais seguros, com orientação e rumos precisos.
Parabéns, Flávio. A nossa bancada e a nossa assessoria
te abraçam e desejam que esse adeus seja muito breve, porque
serviço, trabalho e enfrentamento político é
o que não faltará nos próximos anos. Obrigado.
O SR. FLÁVIO KOUTZII (PT) – Para concluir, Sr. Presidente,
quero, em primeiro lugar, agradecer imensamente as palavras generosas
dos colegas e a paciência daqueles que vieram a esta sessão
sem saber, talvez, que encontrariam uma circunstância como
esta.
Mas esta circunstância não é artificial, e
isso é o que mais me toca. A palavra de cada um é
como um espelho que te retorna um pouco do que conseguiste ser.
Para pessoas – e são muitas as da minha geração,
que começou nos anos 60 – que praticamente dedicaram
toda a sua vida política nestas e em outras condições
– de clandestinidade, adversidade, exílio, prisão,
perseguição, discriminação –,
é especialmente significante que haja momentos como este,
de certa síntese, de certo simbolismo.
Há algo muito claro que ainda preciso dizer e que os meus
companheiros e companheiras sabem: não fui candidato por
decisão da minha consciência.
Quase todos os que estão aqui – meus irmãos
e meus companheiros, parte de mim, da minha vontade e dos meus
sonhos – se candidataram. Somente eu, o frei Sérgio
e a Miriam não o fizemos, ainda que por razões diferentes.
Tomei essa decisão não para me proteger. Nem foi
um lance para ficar bem ou para não sei o quê. No
que me concerne, foi uma maneira de dizer, não individualmente,
que eu sou dessa raça e não gostei que tenham acontecido
determinadas coisas, não por mim, mas por nós. Não
gostei, porque não merecíamos; não gostei,
porque aprendi que não está certo considerar que
todos são culpados porque ninguém assume a responsabilidade
da sua culpa.
Não somos todos culpados. Somos exatamente o contrário
disso. Podemos errar – sim, é verdade, e não
é ingênuo –, mas lutamos por um mundo melhor
– sim, vale a pena, é um belo lado da vida.
Se dedicamos nossas vidas, em diferentes circunstâncias,
à luta pela consciência, continuaremos lutando por
justiça, por igualdade, para que haja carinho entre as
pessoas, e pelas possibilidades dos humanos. Esse é o nosso
lado.
Durante muito tempo, principalmente nas épocas mais difíceis,
a esquerda, antes de chegar ao poder, esteve presente nesse lado.
É dessa tradição que viemos, e é,
portanto, com dor e com luto que continuamos.
Aqui ninguém se faz de louco. Aqui todos entenderam os
problemas.
Sabemos distinguir, porque esta é uma chave do presente,
entre aceitar as responsabilidades e deixar-se esmagar pelo movimento
político do adversário, que aproveita nossa fragilização,
pela qual inclusive somos responsáveis, para nos anular,
para nos destruir e para nos fazer desaparecer do mapa.
Disse aqui que houve vitória, sim, mas que devemos ser
sóbrios com isso; disse aqui que haverá continuação,
sim, mas que há várias maneiras de continuar e de
trabalhar, assim como há várias maneiras de significar.
Com essas palavras, quis dizer que ainda merecemos a confiança
daqueles que até hoje confiaram em nós.
Quando a situação fica muito difícil, Jussara,
a poesia nos salva, pelo menos um pouco.
Por isso, Sr. Presidente, para encerrar meu pronunciamento, lerei
a letra de uma canção que não conhecia. O
autor é Silvio Rodríguez, um dos maiores compositores
e intérpretes cubanos, ao lado de Pablo Milanés.
Silvio Rodríguez foi uma espécie de Chico Buarque
– seu movimento era chamado de Nova Trova Cubana –,
um renovador da música e da poesia na música cubana.
A composição é de 1970 e se chama Oda a mi
generación.
Com pequeno ajuste e algumas supressões, fiz minha esta
letra, com a qual me identifiquei com enorme emoção.
E é com essa emoção que encerro o meu pronunciamento
– e peço desculpas por abusar do tempo –, pois
é o que me permite registrar aquilo que, de certa forma,
fala melhor deste momento e de minhas próprias escolhas.
Ode à minha geração
Aos doze dias de dezembro do ano de 2006
Um homem sobe sobre suas derrotas
Pede a palavra
Momentos antes de tornar-se louco
Não é um homem,
É um malabarista de uma geração
Não é um homem,
Talvez seja um objeto de diversão,
Um brinquedo comum da história.
(...)
Esse homem sou eu.
Mas devo dizer que me tocou nascer no passado
E que não voltarei.
É por isso que um dia me vi no presente
Com o pé lá onde vive a morte
E outro pé suspenso no ar
Buscando lugar,
Reclamando terra do futuro para descansar.
Assim estamos eu e meus irmãos
Com um precipício em equilíbrio.
Agora, quero falar de poetas
E de tantos jovens filhos desta festa
E da tortura de ser eles mesmos.
Porque há que dizer que há quem morra no seu papel
(...)
Eu não renego o que me toca.
não me arrependo pois não tenho culpa
mas queria ter podido jogar
toda a morte lá, no passado,
ou toda a vida no futuro que não posso alcançar.
E com isso não quero dizer que me ponho a chorar
Sei que há que seguir navegando
Exigindo-se.
Até poder seguir
Ou rebentar.
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